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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu me importo


quem você pensa que é
pra fazer o que bem quiser
consigo?

sim
eu não sou seu amigo
nem sei o seu nome

mas há algo que nos liga
: pelo umbigo



o ar que você respira
também é meu

o sol
a lua
as estrelas

você está
sob o mesmo céu
que eu

que distância
pode existir entre nós
se você escuta
a minha voz?



somos feitos do mesmo barro
da mesma proporção
de água e terra

e você insiste
em me chamar
de outro
em me julgar
estranho
em me declarar
guerra



não
você não sabe
que eu sou você
em algum momento

na dor
no amor
na alegria

somos sempre
um só
ao relento



a vida
é labirinto
de espelhos

é que muitos andam
de olho vendado

você acha que segue
um caminho distinto
mas a Terra nos gira
pro mesmo lado



Para Felipe Saleme, em 2012.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O lago


[quando o cisne
criado entre patos
encontra o lago

eureca

se vê cisne
deixa os patos
segue os iguais]

floreio:

entre cisnes
em pose no lago
o pato feio



Para Regina Castelo, após Lacan.

domingo, 10 de maio de 2015

Retido

 
ela o havia perdido.
assim,
sem aviso prévio,
sem motivo certo,
sem o ter conhecido.
 
a notícia seca
a lhe engasgar o peito.
 
o choro contido,
o único meio de se fazer ininterrupto.
 
a vida jamais voltaria à de antes.
 
teria sempre
o sorriso imperfeito,
o abraço doído
e a alma triste.
 
e a maioria lhe dizia em tom de chiste
que logo, logo lhe viria outra espera.
 
o maior absurdo acerca do aborto
é que poucos o veem como filho morto.
 
o luto foi seu e de mais ninguém.
 
 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Senzala


a palavra
escraviza

de tudo que batiza
ela se apodera

a coisa deixa de ser
para chamar-se

àquilo que era
é dado um disfarce

toda máscara
é algema

como livrar-se
a coisa do nome?

a maiúscula apequena
o que nomeia

a tônica intimida
a tentativa

o próprio som
como correia

a própria vida
menos viva

a palavra
cativa


sábado, 24 de maio de 2014

Pixels


Onde, hoje,
a vida real é mais importante
que o seu registro em celulares?
Todos querem mesmo é anunciar
que foram aqui-e-ali
e fizeram isso-e-aquilo.
Ir e fazer tornaram-se méritos em si.
A vivência? Inteiramente secundária.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Na ribeira


sem lavar os olhos, eu farejo
coisas a quilômetros

você nem desconfia, mas
deixou vestígios no azul
do azulejo da pia antes mesmo
de abrir esta torneira de água
barrenta e fria

saiu de mãos sujas e elas cheiram
ainda mais à distância,
que piedade

o podre se agarrará às unhas
quanto maiores a ganância
e a maldade

deixe-me aqui:

ciente de que esta água
fria e barrenta a seguir
pelo ralo bolorento
me orienta a abrir os olhos
de remela

sem lavá-los, eu farejo
coisas a quilômetros

minha alma é lavada a barrela




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Réveillons


adoraria dizer que algo mudou, mas
não, não posso. nada muda assim,
não assim de um dia pro outro.
dezembro virou janeiro
e isso jamais alterou os fatos.
ainda somos você e eu
os mesmos de antes da ceia,
talvez apenas um pouco mais fartos.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tolos


não,
já não bastam
os muros,
as paredes,
os mármores,
as portas de aço.
eles querem pichar seus olhos.
para que vejam
ou para cegá-los?
uma pergunta,
uma só pergunta
diante do estrago:
eles julgam que enxergam?


domingo, 10 de novembro de 2013

Salão de belezas


quase não passo Renda nas unhas,
esses dedos pálidos me parecem
excessivamente virginais.
acabo sempre por escolher entre os vermelhos,
aquele que, num semitom acima ou abaixo,
coerentemente mantenha os meus dedos
como pecados confessos.

enquanto observo a francesinha fresca
da senhora sentada na cadeira ao lado,
a manicure ainda em experiência
me conta em segredo
que está grávida
não-sabe-de-quantas-semanas
e que passa muito mal.
confidente, sou responsável pelo que escuto
e as unhas das minhas mãos
são, então, pintadas aos sussurros,
eu a explicar à moça com que especialista
ela precisaria consultar-se.

ao redor, os burburinhos abafados
pelos incontáveis secadores de cabelo,
mulheres a folhearem Caras
durante o esticar ou o descolorir de seus fios.
a cada página virada, um muxoxo:
como pode a celebridade estar em forma
um mês após o terceiro parto?
e logo alguém lhe dá um peteleco no braço:
olha só quem fala,
você, com esse corpinho, nem parece ser mãe...

durante as unhas dos pés,
descubro que a manicure grávida
já tem um filho de seis anos.
a mesma idade, talvez, da menina
que vejo autorizada pela mãe,
antes da terceira manha,
a sentar-se ao lavatório,
sobre duas almofadas,
os pezinhos suspensos,
para lavar os seus cabelos compridos
pela primeira vez em um salão.
a mãe hesitantemente define
o tonalizante na cartela de cores,
enquanto a filha se ruboriza em gracejos,
um jovem homem a ineditamente
massagear seus cabelos,
da nuca às pontas embaraçadas.

com cuidado, peço à atendente
que pegue em minha carteira
o valor para pagamento dos serviços.
e saio de mãos e pés ligeiramente recuados,
para preservar meu vermelho Nunca fui santa.



Escrito a partir do texto O salão,

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A provisoriedade do luto


corpo algum ressuscita.
os mortos permanecerão mortos
independentemente de homenagens e visitas.
mas as cinzas falam.
e denunciam o que ninguém quer ouvir.
há mais festas e fogos,
carnavais e jogos
que labor por aqui.
a autoridade viaja,
a vigilância adormece,
o proprietário enriquece:
a fatalidade data de alguns anos.
indolente,
o governo apaga incêndios
e paga perdas e danos.



sábado, 15 de dezembro de 2012

Em episódios


nada
nessa vida
é tão repentino,
nem mesmo a morte
dita súbita que de súbita
não tem nada, pois aguardada
desde que se nasce como destino

sim

nada
nessa vida
é tão inesperado,
nem mesmo um tornado,
que se faz tornado por ventos
de tempestade de nuvens estranhas,
o céu a dizer que também tem entranhas

assim

por que
nosso mundo
haveria de ter fim
agendado pra uma data,
tal qual compromisso ou festa
a exigir do homem terno e gravata?
todo fim caminho lento e sem passeata


domingo, 28 de outubro de 2012

Velório


Mataram alguém na esquina.
Das pessoas que passavam
fez-se uma multidão.
A vizinhança não,
mal olhou pela cortina.
Permaneceu em casa
diante do noticiário da tevê.

A multidão logo esvaiu-se,
que tinha mais o que fazer:
não havia sangue algum ao chão.
Onde é que já se viu morto que não sangra?
As tevês se desligaram
ao meio da novela.
Todos à luz da vela.



Escrito durante as oficinas do projeto Ave, Palavra,
promovido pela livraria A Terceira Margem.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Feicebuqui



Eu passeio pelo Face com peneiras.
Ou elas são muito finas,
ou nele só há besteiras.
Quase nada se aproveita:
apenas um ou outro artigo,
algum vídeo interessante
ou alguma imagem eleita.
De resto, futilidades.
Quase todos se creem celebridades:
expõem-se em fotografias íntimas
e noticiam os próprios destinos.
O que deu nesses meninos?
Por que se põem em vitrine?
Onde está sua autocensura?
Há assuntos que exigem cabine.
E eu saio do Face arrependida:
tempo desperdiçado nessa sociedade falida.


Twitter: O homem se revela pelo uso que faz das ferramentas.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A sociedade como ela é



Sem pierrô
e colombina,

sem confete
e serpentina,

a rua cheira
a cigarro e urina.

Carnaval não é fantasia,
mas a nudez de nossa rotina.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Aos especiais



que haja

lição
em braile

diálogo
em libras

acesso
a espaços

que haja

competição
esportiva

catálogo
de artistas

ingresso
a carreiras

que haja

integração
que não houve

do análogo
que não vê ou não ouve

progresso
daquele que não se move

que haja

ação
do governo

decálogo
em prática

afeto expresso
de quem se comove



Dia Internacional do Deficiente Físico.

sábado, 20 de novembro de 2010

Aos negros





que diferença faz
a cor da tua pele,
a textura do teu cabelo,
o passado da tua raça?

fica em paz!
o branco que se rebele
contra o próprio desmazelo
a irmãos de mesma graça.

- hipocrisia
de um povo mestiço
que se rejeita no outro
sem se dar conta disso.

- ignorância
de quem não percebe
que somos nós todos
de uma só plebe.


Dia da Consciência Negra.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Avareza



Por que pensas
tanto em dinheiro,
se sabes que,
além de bens,
nada tens
de verdadeiro?

Sequer consegues
sorrir como faço:
com o desembaraço
das mãos vazias.

Nas digitais
de teus dedos,
há cifrões.
Nas minhas,
cifras e poesias.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pura magia





tivesse varinha de condão,
minha vida não seria tão distinta

talvez mais tempo livre
para preenchê-lo

a coragem de pôr tinta
laranja no cabelo

uma granja
em que criasse galinhas

a certeza de ter suas coisas
junto às minhas

nada além,
que a vida se basta...

[tivesse varinha de condão,
daria essa convicção à outra casta]


Em agradecimento à poetisa Mirze Souza,
por me ver com uma varinha de condão em cada dedo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Papo furado



Alguém me diga a serventia
deste debate sobre aborto,

se o que reina é a hipocrisia:
a cada cinco fetos, um morto.


Pesquisa realizada em maio do corrente ano.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Pior que tá, não fica!"



ele pediu voto
como se fosse ingresso.

admitiu
desconhecer o Congresso.

prometeu auxílio
aos pobres e a si.

candidatou-se
como quem dança e ri.

alegou ao povo
ser ele a verdade.

recebeu de São Paulo
real credibilidade?


Tiririca foi o Deputado Federal mais votado no país.

Já dizia Raul Seixas,
ao citar Aleister Crowley em Sociedade Alternativa:
Faz o que tu queres,
há de ser tudo da lei.