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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coisa de ninguém



a poesia
não é minha filha:
não me vem do útero
bacia
e virilha

a poesia
não é minha arte:
não me vem do estudo
bibliografia
e encarte

a poesia não me vem
a poesia não é minha


Para Lara Amaral,
em um diálogo com seu poema Mãe desnaturada,
publicado em 1º de maio no espaço
Teatro da vida.

sábado, 12 de dezembro de 2009

O princípio do fim



Se bem
me lembro,

dezembro
é neblina

que vem
e passa,

mas embaça
a retina;

é nuvem
baixa,

à faixa
dos olhos,

a pedir
uma prece,

pois que desce
com o céu:

Seu berço,
meu terço,
o véu.



Para Marcelo Novaes,
em um diálogo subliminar
com os poemas intrigantes que publica
em O lugar que importa.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Comprimida



Sempre
que a noite
vem sem o sono,
ela venda
os olhos
com tarja
preta.
De si,
pra que legenda?
Se for
pra se ouvir,
que não compreenda.
O controle remoto
à gaveta.


Para Luciane Slomka,
em um diálogo com seu poema Tarja preta,
publicado hoje no espaço
Crer para ver.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O espelho



No reflexo em que me vejo
- olhos nos olhos -
às vezes encontro virtude,
às vezes encontro pecado,
às vezes, bem amiúde,
sequer me encontro deste lado
à frente.
E, desta dúvida, em que procuro
- bem ou mal -
saber se existo,
ao final, o que restará somente?
Uma alma em Cristo
ainda dormente.


Escrito a partir da conjugação da leitura
de O auto-retrato e Espantos,
ambos de Mário Quintana.

Hoje, inclusive, o doce de lira está recomendado pelo wwwpesquisa,
que traz o meu e os dois poemas do Quintana acima citados.
Obrigada, Tereza Stancioli, por haver me indicado ao lado de um mestre!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Morda-se!





Antes de me agredir
e de tanto
me bater na cara
esta porta,

por que não para
para refletir:
quanto de felicidade
você suporta?


Escrito a partir de:
“Ser feliz é uma responsabilidade muito grande.
Pouca gente tem coragem.”

Clarice Lispector, em Um sopro de vida.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Golpe de vista



e por mais
que se esforce,
meu olhar
ainda nos trai

ao me pôr
em ti
a cada palavra
que sai

se te leio
é sempre ao meio
- da metade
até a mim

e como pode
haver verdade
nisso que é quase
um motim?


Para Talita Prates,
em um diálogo com seu poema Da nudez outra,
publicado em 21 de agosto no espaço
História da minha alma.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Armadilha



Ao publicar uma obra,
o autor se arrisca.
Quando esta faísca
a lhe dizer que brilha?

Renata de Aragão Lopes



Debrucei-me, por 30 dias, sobre a
"Obra imatura",
de Mário Raul de Morais Andrade,
por sugestão e presente da Editora Ediouro.

Imatura? - a primeira de minhas indagações.
O título se justifica por trazer a obra
textos antigos e outros que o autor,
ainda em produção,
considerava não amadurecidos.

De início, o livro publicado em 1917
cujo título é um verso alexandrino:
"Há uma gota de sangue em cada poema".
Sob o pseudônimo de Mário Sobral
e a assumir os custos da gráfica,
o autor o lançou com apenas 13 poemas,
todos escritos em abril,
dentre os quais destaco
trechos de a "Exaltação da paz"
e o romântico "Epitalâmio".
Criticado à época, o livro foi definido
pelo próprio Mário de Andrade
como um "livrinho de versos pacíficos",
"ruim esquisito".

Em seguida, "Primeiro andar":
uma seleção de contos
escritos entre 1914 e 1922.
Excelente leitura.
Temas variados, abordagens peculiares.

Por fim, "A escrava que não é Isaura",
ensaio em que Mário de Andrade
propõe a arte moderna brasileira.

O que mais me encantou?
Conhecê-lo!
Descobrir que, metódico,
mantinha seus manuscritos
em pastas de cartolina colorida;
que, curiosamente,
destruía os passos de seus textos,
assim que publicados;
que era capaz de se dedicar
à elaboração simultânea de obras;
que olhava severamente para seus escritos
e os revia, com acréscimos e rasuras
feitos a pena ou grafite.

Para deleite, a "Obra Imatura" traz,
em suas últimas páginas,
cópias de alguns manuscritos
datilografados e rasurados pelo autor.

Além de, em minha estante,
o livro encontra-se disponível
no link:
Obra Imatura

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ao aguardo do amor



Também sempre quis, amiga,
um amor que me viesse cantiga.
Que me ninasse
ao cair da noite
e me cantarolasse
à moda antiga.
Um amor ameno,
a menos
quando assim não o quisesse.
Um amor que soubesse
fazer-se meu
sem que eu
tivesse de pedi-lo.

Sempre quis, de verdade,
um amor que não gostasse
disso ou daquilo.
Um amor que concordasse
em ir comigo a todo canto
apenas pela minha companhia.
E que me trouxesse
menos dissabores
e mais alegrias.
De todos os meus amores,
o que me desse mais carinho,
o que me quisesse sua
sob todas as luas.
Mas um amor
que soubesse estar sozinho.
Que tivesse
afazeres particulares,
alguns prazeres
de quando ainda menino.
Um amor leve
que compreendesse
a ausência breve
de quando me sinto poetisa.

Também sempre quis, Elisa,
um amor que me aplaudisse.
Um amor maduro
que não temesse
me perder por tolices.
Que, seguro,
ele me motivasse a ser mais,
desprezando o ciúme
que, vez ou outra, sentisse.
Um amor que me beijasse
com suas mãos
em meu rosto.
Que me deixasse
na boca
um gosto de céu.

Cadê esse amor
que não sai do papel?
Que encomenda é essa
que não vem?
Metade de mim se desespera.
A outra metade é só de espera,
seja lá o tempo que passe.
Ah, eu sempre quis um amor
que assim também me aguardasse.


Diálogo, datado de 19/09/2006, com Elisa Lucinda, autora de Da chegada do amor:
http://www.escolalucinda.com.br/bau/dachegadadoamor.html

sábado, 11 de abril de 2009

Sarau



Vem!
Senta
e te serve
Chandon!
Aí pela sala,
Clarice,
Quintana
e Drummond.
_ Há momentos na vida
em que sentimos tanto...

Clarice à porta.
_ Recordo ainda...
e nada mais me importa...

Quintana lhe estende a mão.
_ As coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
E Drummond ergue a taça
solenemente.

Vinicius vê graça
na menina que chega.
_ Eu te peço perdão
(ao violão)
por te amar de repente.
_ E aqui estou,
cantando.

Cecília o acompanha.
_ Olho d’água, bebida.
A vida é líquida.
Hilda aprecia o champanha.
_ Que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.

Diz Coralina
assim que finda
de decorar
doces de lira.

Mentira?
Então brinda
e prova esse doce
- como se não fosse!


Clarice Lispector – Momentos na vida
Mário Quintana – Recordo ainda
Carlos Drummond de Andrade – Memória
Vinicius de Moraes - Ternura
Cecília Meirelles – Discurso
Hilda Hilst – Alcoólicas I
Cora Coralina – Não sei