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domingo, 4 de dezembro de 2016

Hóspede


Gullar não morreu
   - só foi habitar poema
             mais perto de Deus -



Fotografia: Ferreira Gullar (10.09.1930 - 04.12.2016)

domingo, 20 de novembro de 2016

Ordem


o céu me disse:
_ pede

pedi - pedi - pedi


e o céu me disse:
_ receba

recebi - recebi - recebi


e o céu me disse:
_ cede

cedi - cedi - cedi


e o céu me disse:
_ sobe

subi



Ao meu tio Geraldo.

domingo, 8 de março de 2015

Trilogia feminina

 
I
 
feliz e bonita.
um sorriso no rosto,
no cabelo uma fita.
é cheia de graça
e os olhos parecem de purpurina.
traz em uma das mãos um anel
e nos pés, o sonho da bailarina.
o vestido que lhe põem
pode ser de tule ou organza,
de papel ou cartolina.
hermética num plástico
ou permeável num tecido,
toda boneca carrega uma menina.
 
 
II
 
aprendiz aflita.
saltinho na sandália
e vestido de chita.
é cheia de dúvida
e os olhos parecem de lua.
traz em uma das mãos um espelho
e nos pés, o medo da rua.
a rotina que lhe impõem
deve ser de bule e agulha,
de garfo, faca e colher.
reclusa num oceano
ou livre numa gaiola,
toda menina carrega uma mulher.
 
 
III
 
gris senhorita.
colar com dente de javali
e brincos de marcassita.
traz em uma das mãos um leque
e nos pés, o coturno de um soldado.
o destino que lhe propõem
há de ser de sopro e sangue,
de pó-de-arroz e fuligem.
refém do ventre
ou íntima dos hormônios,
toda mulher carrega a própria origem.
 
 
 
Poema divulgado em 2013, em três espelhos distintos,
na Exposição Ventre - Fotografia e Poesia, com Diego Zanotti.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Epitáfio


estranho esse estranhamento com a morte,
visto que ela se anuncia desde o primeiro
segundo de vida.

morre o homem aos noventa e muitos anos
e vai tão cedo!, por que tão cedo?, tão
querido que era, tanta falta fará.

será isso?

que saudade ansiosa seria essa a já
se queixar da ausência diante
do cadáver? 

se não aos noventa e tantos anos muito bem
vividos, em que outra idade se poderia morrer
sem essa invariável sucessão de lamentos?

lamenta-se, afinal, o morto ou a morte?

a saudade é pretérita. é o choro da lembrança.
confissão de impotência do homem, que, por mais
avançada a ciência, jamais se deslocará no tempo
além de nas escassas memórias.

o corpo é finito. é acúmulo de células.
a mansidão da matéria, que se sabe
provisória e simplesmente aceita
a circunstância.

que ninguém se engane: o morto é a morte.
o sussurro fúnebre aos ouvidos. o sinal ostensivo
de que o fim é próximo, queira Deus o mais
distante possível.

todo homem é menino.



A Manoel de Barros.

sábado, 19 de junho de 2010

A Saramago



Antes que te vás, merecidamente em paz,
para conheceres os tantos saberes que nos são dormentes em vida,
permite-me, por obséquio, uma tão breve despedida,
que não ousaria atrasar-te a ida.
Segue, homem, com toda honraria e haste à Ilha Desconhecida,
consternada te digo, pois deixaste cada obra tua
como que autografada comigo.


"todas as ilhas, mesmo as conhecidas,
são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas"
O Conto da Ilha Desconhecida