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domingo, 29 de maio de 2016

Inconfidente


todo aquele que escreve transborda.

ainda que se escreva em um diário,
o cadeado a servir-lhe de tranca, 
há somente a ilusão do segredo:
as confidências pertencem ao mundo.

todo aquele que escreve denuncia.

ainda que se escreva uma carta,
o nome do destinatário ao envelope,
há somente a ilusão do sigilo:
as notícias pertencem ao mundo.

todo aquele que escreva forja.

ainda que se escreva um soneto,
a rubrica sob os versos medidos,
há somente a ilusão da autoria:
as artes pertencem ao mundo.

e, afinal, se tantos escrevem,

é porque a existência
se exige compartilhada.
há somente a ilusão do corpo:
as vidas pertencem ao mundo.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Míope



as palavras estão aí
nalgum lugar que desconheço:
por entre as pedras ao chão
em meio às colunas de gesso

e por mais que tropece nelas
ou esbarre em sua grafia,
a verdade é que mal as veem
meus olhos de miopia

sem elas não sou poeta
ou sou por estar incompleta?

escrever é posse
ou busca?

poesia é precoce
ou tardia?

poema é palavra
ou silêncio que se pronuncia?

eu sei que sigo andarilha
de óculos e sapatilha,
as palavras por aí
nalgum lugar que desconheço


O Doce de Lira faz 3 anos.
Obrigada a todos os leitores!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sacerdotisa



Nasci com hábitos
de coruja.
Minha garatuja
continha estrelas.
Sozinha,
ergui um templo.
A exemplo do sol,
persegui o equinócio.

Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.
Pelo poder da palavra,
escolhi-me poetisa.
Não seria
a poesia
um sacerdócio?


Poema publicado no Maria Clara em 13 de fevereiro.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O poeta e a ciranda



Palavra é grão e palha.
Poesia é o que passa
ou o que falha?


sábado, 5 de setembro de 2009

Elementar



De que é feito o poeta?

De matéria
etérea
ou concreta?

Do fato
que vivencia
ou da utopia
que projeta?

Ele é feito
de sopro
ou de barro?

Ele habita
o corpo
ou a alma?

O poeta levita
ou mergulha?

A escrita
lhe é fagulha
ou despiste?

O poeta acredita
que existe?


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Papel glacê



Poesia
não tem receita,
mas pra ser
bem feita
precisa ser sua.
Não se cata
verso
na rua!
Ele vem
da própria nata
vinda
do leite
ainda no fogo.
Poeta ferve palavras.
E nelas
polvilho
canela,
açúcar mascavo,
favo de mel.
Daí o brilho
deste papel.


4 meses de blog!
Obrigada a todos que se declararam adocicados aqui...


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Armadilha



Ao publicar uma obra,
o autor se arrisca.
Quando esta faísca
a lhe dizer que brilha?

Renata de Aragão Lopes



Debrucei-me, por 30 dias, sobre a
"Obra imatura",
de Mário Raul de Morais Andrade,
por sugestão e presente da Editora Ediouro.

Imatura? - a primeira de minhas indagações.
O título se justifica por trazer a obra
textos antigos e outros que o autor,
ainda em produção,
considerava não amadurecidos.

De início, o livro publicado em 1917
cujo título é um verso alexandrino:
"Há uma gota de sangue em cada poema".
Sob o pseudônimo de Mário Sobral
e a assumir os custos da gráfica,
o autor o lançou com apenas 13 poemas,
todos escritos em abril,
dentre os quais destaco
trechos de a "Exaltação da paz"
e o romântico "Epitalâmio".
Criticado à época, o livro foi definido
pelo próprio Mário de Andrade
como um "livrinho de versos pacíficos",
"ruim esquisito".

Em seguida, "Primeiro andar":
uma seleção de contos
escritos entre 1914 e 1922.
Excelente leitura.
Temas variados, abordagens peculiares.

Por fim, "A escrava que não é Isaura",
ensaio em que Mário de Andrade
propõe a arte moderna brasileira.

O que mais me encantou?
Conhecê-lo!
Descobrir que, metódico,
mantinha seus manuscritos
em pastas de cartolina colorida;
que, curiosamente,
destruía os passos de seus textos,
assim que publicados;
que era capaz de se dedicar
à elaboração simultânea de obras;
que olhava severamente para seus escritos
e os revia, com acréscimos e rasuras
feitos a pena ou grafite.

Para deleite, a "Obra Imatura" traz,
em suas últimas páginas,
cópias de alguns manuscritos
datilografados e rasurados pelo autor.

Além de, em minha estante,
o livro encontra-se disponível
no link:
Obra Imatura

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Vitrine



A poesia
era minha.
Eu a fazia
e escondia
na gaveta.

A escrivaninha
ficou pequena
pra tanto papel
de rascunho
e caneta.

Que fazer
com tanto poema,
se o punho
ainda teima
a escrever?

Eu os ponho
na vitrine
como doces de lira.
É sonho ou você delira
quando os lê?


Quase 2 meses de vitrine: cerca de 500 visitas e 30 seguidores.
Obrigada a todos, até mesmo aos anônimos de todo canto do mundo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Versos perdidos

Aos poetas o computador literalmente engana.
Não há, ao final, evidências
do quão trabalhoso foi, afinal, seu trabalho.
Não há linhas riscadas,
palavras suprimidas
ou folhas de papel desprezadas.
Há somente versos perdidos,
como se jamais tivessem existido,
como se escrever fosse tão só intuitivo,
como se o poema na mente já fosse vivo,
como se poeta tivesse mãos assim tão abençoadas...


2º lugar no 4º Concurso Regional de Poesia da FACECAP
Faculdade Cenecista de Capivari/SP - 2004
Imagem: rascunho de Fernando Pessoa
http://www.biografia.wiki.br/fernando-pessoa-poeta.html

sábado, 11 de abril de 2009

Sarau



Vem!
Senta
e te serve
Chandon!
Aí pela sala,
Clarice,
Quintana
e Drummond.
_ Há momentos na vida
em que sentimos tanto...

Clarice à porta.
_ Recordo ainda...
e nada mais me importa...

Quintana lhe estende a mão.
_ As coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
E Drummond ergue a taça
solenemente.

Vinicius vê graça
na menina que chega.
_ Eu te peço perdão
(ao violão)
por te amar de repente.
_ E aqui estou,
cantando.

Cecília o acompanha.
_ Olho d’água, bebida.
A vida é líquida.
Hilda aprecia o champanha.
_ Que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.

Diz Coralina
assim que finda
de decorar
doces de lira.

Mentira?
Então brinda
e prova esse doce
- como se não fosse!


Clarice Lispector – Momentos na vida
Mário Quintana – Recordo ainda
Carlos Drummond de Andrade – Memória
Vinicius de Moraes - Ternura
Cecília Meirelles – Discurso
Hilda Hilst – Alcoólicas I
Cora Coralina – Não sei