sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Golpe de vista



e por mais
que se esforce,
meu olhar
ainda nos trai

ao me pôr
em ti
a cada palavra
que sai

se te leio
é sempre ao meio
- da metade
até a mim

e como pode
haver verdade
nisso que é quase
um motim?


Para Talita Prates,
em um diálogo com seu poema Da nudez outra,
publicado em 21 de agosto no espaço
História da minha alma.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A[tre]vida



_ Quantos centímetros a mais?
Como se a vida
fosse uma régua.


_ Quantos quilômetros a mais?
Como se a vida
fosse de léguas.


_ Quantas dúvidas a mais?
Como se ela
não merecesse trégua.



Para Márcia Miranda.

domingo, 23 de agosto de 2009

Nota da Confeiteira


Hoje, por ser dia 23, estou no Poema Dia.

Profissão de fé é um poema
que publiquei em 19 de abril
aqui na Confeitaria,
assim que inaugurada.
Gostaria muito de que vocês
o conhecessem.

Aproveitem para apreciar
a arte de outros poetas.

Obrigada a todos os que me seguem!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lascívia



ela passa
esmalte vermelho
e se acha!

como pode a cor
das unhas
lhe pintar o humor?

ela para
diante do espelho
e repara:

são os dedos
as testemunhas
dos segredos-
-bordô.



terça-feira, 18 de agosto de 2009

Elas e eles e elas



as mulheres
não vão ao cinema
- apenas -
pela musculatura
viril

os homens, sim,
abdicam da cultura
apenas
por um - bom -
quadril


Escrito a partir de uma reportagem de Isabela Boscov,
publicada na Veja desta semana:
edição 2126 - ano 42 - nº 33 - p. 139.

sábado, 15 de agosto de 2009

Ao Rei





Inicie, se apreciar a música.
Ela foi adaptada de uma melodia lírica do século XVIII
chamada Plaisir d'Amour,
do compositor italiano Giovanni Martini.
Sua tradução:

Homens sábios dizem que só os tolos se apaixonam
Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você
Eu deveria resistir?
Seria um pecado
Se eu não consigo evitar que me apaixone por você

Como um rio que corre pro mar
Querida isso segue
Tem coisas que têm destino certo
Tome minha mão, tome minha vida inteira também
Porque eu não consigo evitar que me apaixone por você

Como um rio que corre pro mar
Querida isso segue
Como coisas que têm destino certo
Tome minha mão, tome minha vida inteira também
Porque eu não consigo evitar que me apaixone por você
Porque eu não consigo evitar que me apaixone por você

Elvis Presley
08/01/1935 - 16/08/1977




é o amor real
que de tão especial
parece mentira


A quem me faz Rainha…


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cá entre nós



Não era triste.
Nem feliz.
Vivia
de uma alegria
inventada.
Sorria
feito atriz.
Disfarçava.
E convencia,
talvez porque
brava.
Quem ousaria
perguntar
a verdade?
Parecia contente.
E pronto.
E ainda havia
gente
que a invejava
por um conto
de felicidade.
O mundo
é tão mesquinho...
Não saberá
das estrelas
que há hoje
em seu céu
marinho.



terça-feira, 11 de agosto de 2009

Papel glacê



Poesia
não tem receita,
mas pra ser
bem feita
precisa ser sua.
Não se cata
verso
na rua!
Ele vem
da própria nata
vinda
do leite
ainda no fogo.
Poeta ferve palavras.
E nelas
polvilho
canela,
açúcar mascavo,
favo de mel.
Daí o brilho
deste papel.


4 meses de blog!
Obrigada a todos que se declararam adocicados aqui...


sábado, 8 de agosto de 2009

Autodidata



O meu pai
já teceu tapete,
redes de peixe,
fios de corda.

O meu pai
já pintou telas,
biscuit e janelas,
paredes e portas.

O meu pai,
com um simples motor,
moldou os mais lindos
times de botão.

O meu pai,
sem saber que fez isso,
ensinou ser possível,
sem sacrifício,
aprender por si
qualquer lição.


Escrito há mais de 15 anos.
Presente de dia dos pais!


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Felicidade



da noite pro dia
a orquídea floresceu
não só ela: eu



Haikaindo de amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Agosto



e sentiu um prazer estranho
sem razão
forma
ou tamanho

uma sensação repentina
enquanto caminhava
da porta
à janela sem cortina
de onde avistava
uma capela
entre telhados aquecidos

como se tudo
enfim estivesse posto
no lugar devido
e a gosto


Vista do Morro do Imperador - Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pacto



Guarda teu passado
a quatro chaves.
Destranca o cadeado
apenas do que nos agrade.
Mantém sob grades
os atos que não dizem de ti.
Responda-me
se e só
quando muito insistir.
Assim o farei também.
O amor
se contorce de dor
quando sabe além.



segunda-feira, 27 de julho de 2009

Dia das avós



entre bordados e costuras
entre temperos e iguarias
cosiam nossas travessuras
coziam nossas fantasias

avós
têm voz
de anjo
e nos falam
até do céu

eu as ouço
ao provar um doce
ao segurar um carretel


Homenagem saudosa
à minha bisa Odete
e às minhas avós Lúcia e Nair.
Que os versos atravessem as nuvens...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ponto de vista



Bastou-me sentar à toa
no banco da praça
das sete às nove,

para ver que o tempo não voa,
que a hora não passa,
a manhã não se move.



Escrito há mais de 15 anos.

domingo, 19 de julho de 2009

No mesmo barco



Irmãos
são amigos de vida.

Amigos
são irmãos de lida.

Bússolas.
Âncoras.
Faróis.

Amizade não comporta
despedida.


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Minudências



Os dias se sucedem
sem que os lábios sequem...
Você me bebe
e eu lhe bebo
no desassossego
dos pequenos goles.
Em lentidão,
você me percebe
e me descobre,
eu lhe percebo
e lhe descubro
na vastidão
de cada detalhe.
Sei que busca
da minha alma
o talhe;
sabe que busco
da sua,
o matiz.
Você me beija
e eu lhe beijo
dando a diretriz.
E criamos elos
entre o que há de gestos
e o que se diz.
As verdades vêm
em medidas.
Não vive o amor
das minudências sentidas?


Escrito em 2007.
Obteve, em 2008, o 3º lugar geral
na 2ª edição do Concurso Internacionalizando o Jovem Escritor.
Debatido no Estúdio de Criação Poética em junho de 2009.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Armadilha



Ao publicar uma obra,
o autor se arrisca.
Quando esta faísca
a lhe dizer que brilha?

Renata de Aragão Lopes



Debrucei-me, por 30 dias, sobre a
"Obra imatura",
de Mário Raul de Morais Andrade,
por sugestão e presente da Editora Ediouro.

Imatura? - a primeira de minhas indagações.
O título se justifica por trazer a obra
textos antigos e outros que o autor,
ainda em produção,
considerava não amadurecidos.

De início, o livro publicado em 1917
cujo título é um verso alexandrino:
"Há uma gota de sangue em cada poema".
Sob o pseudônimo de Mário Sobral
e a assumir os custos da gráfica,
o autor o lançou com apenas 13 poemas,
todos escritos em abril,
dentre os quais destaco
trechos de a "Exaltação da paz"
e o romântico "Epitalâmio".
Criticado à época, o livro foi definido
pelo próprio Mário de Andrade
como um "livrinho de versos pacíficos",
"ruim esquisito".

Em seguida, "Primeiro andar":
uma seleção de contos
escritos entre 1914 e 1922.
Excelente leitura.
Temas variados, abordagens peculiares.

Por fim, "A escrava que não é Isaura",
ensaio em que Mário de Andrade
propõe a arte moderna brasileira.

O que mais me encantou?
Conhecê-lo!
Descobrir que, metódico,
mantinha seus manuscritos
em pastas de cartolina colorida;
que, curiosamente,
destruía os passos de seus textos,
assim que publicados;
que era capaz de se dedicar
à elaboração simultânea de obras;
que olhava severamente para seus escritos
e os revia, com acréscimos e rasuras
feitos a pena ou grafite.

Para deleite, a "Obra Imatura" traz,
em suas últimas páginas,
cópias de alguns manuscritos
datilografados e rasurados pelo autor.

Além de, em minha estante,
o livro encontra-se disponível
no link:
Obra Imatura

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Soturno


Inicie a música antes da leitura.


Chopin
enche de noite esta manhã
de inverno.

O sol
brilha e não aquece o virol
das nuvens.

O vento
sopra e não alivia o ferimento
das folhas.

O café
bem forte me mantém ao pé
da cama.

A escuridão,
o frio e a dor não estão
lá fora.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Fim da festa



Há uma solidão tão minha
que até de mim se disfarça
quando estou sozinha.
E não passa
onde quer que eu esteja,
porque sempre me segue
sem que eu sequer a veja.
Ela está aqui,
escondida,
mas quase despercebida
num beijo de amor.
É quando quase alcanço o céu...
... e de lá me assombro!
Quanto mais fantasio,
maior o vazio,
pior o tombo;
pois não há amor
sem alguma expectativa,
nem há expectativa
sem alguma dor.
Ilusão...
Desilusão...
É sempre o que resta.
A solidão é o fim da festa.
Quando muito,
há paetês no chão.
Ao menos sei
que é assim
e guardo pra mim
essa lucidez nas mãos.


Um dos quinze poemas selecionados no IV Prêmio Literário Livraria Asabeça
– Poesias, Contos e Crônicas, realizado em 2005, pela Scortecci Editora.
Integra a respectiva antologia.
Publicado no Poema Dia e debatido no Estúdio de Criação Poética,
respectivamente, em fevereiro e junho de 2009.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

DNA



Meu filho nasceu no meu dia:
o mesmo tom nos cabelos,
idêntico franzir de testa.

Veio, ainda, com a minha mania:
falar pelos cotovelos,
querer da noite uma festa.

Herdou-me a rebeldia:
a tudo encara, tão cedo,
com olhar audaz e valente.

E vejo que até me copia,
ao temer o que tive mais medo:
a simples troca de um dente.


Escrito, de brincadeira, para o Polian em 12 de março de 2008.

Homenagem pelo 1º lugar no primeiro concurso literário de sua vida!
Concurso Literário “A Turma do Barulho” – categoria B (8-9 anos)
http://cantinhodascriancas.blogspot.com/

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Canja de filhinha



De onde
essa fome
de família?
Da mesa vazia de meu pai
ou do meu jejum de filha?
Meu pai não me deu sopa,
nem eu, a ele, colher de chá.
Não houve,
se bem não esqueço,
entre nós,
sequer um jantar.
O preço?
Ele não manja
que odeio manjar;
que já sou marmanja
e sei cozinhar.
Talvez nem note que fiz essa canja
pra nossa gastrite passar...



Selecionado no 6º Concurso Guemanisse de Contos e Poesias.
Integra a obra Narrativas e poéticas, publicada pela Editora Guemanisse em 2008.