terça-feira, 30 de março de 2010

Abril



março se foi
e não o vi.

seria
o tempo
irracional
como o pi

ou eu
alheia
à geometria
das órbitas?

a areia
caía
tão escassa
na ampulheta

a hora
digital
ultrapassa
a do planeta

que houve
ao dia
e à noite
de antes?

num celeste
ardil
fizeram-se
amantes

março se foi
e não me viu.


sexta-feira, 26 de março de 2010

A d ( i ) v e r s i d a d e



O homem haverá de perceber,
ainda que em um remoto dia,
que não há adversários,
se não aqueles
que ele próprio
cria.


Poemeto inserido na monografia
de minha Pós-Graduação em Direito Público
cujo tema foi o conflito
entre homossexualidade e liberdade de crença.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Imperatriz



e quanto mais se investiga,
maior a intriga:

o que quer
a mulher
afinal?

ser vírgula
(parêntese)
e ponto final

ter pílula
(êxtase)
e gozo real

ser península
(ilha)
e terra continental


Poema publicado no Maria Clara em 13 de março.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Soluço



Desci ao porão
pra rever
monstros antigos
- mas fui em vão.

Descobri
que se tornaram
meus amigos
- logo, somem na escuridão.

De companhia,
restaram-me
vinhos
- a uns poucos degraus do chão.

Embriaguei-me
de apatia
aos golinhos
- subsolo da solidão.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Em negativo



Não,
sua fotografia
jamais caberia
em um porta-retrato!
Que covardia
aguçar-me a visão
e privar-me do tato.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

A valsa



Ao seu lado
e com seu zelo,
sou bailarina
que patina
sobre o gelo

- acumulado
de amores vãos.


Eu deslizo
e rodopio,
em passo
preciso
e esguio

- no espaço
ladeado por suas mãos.



A palavra valsa tem origem no verbo alemão walzen,
que significa girar ou deslizar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Palavrão



Havia aqui
uma palavra
que se me dizia
brava
o bastante
pra te calar.

Decoro
maldito!
Seria
flagrante
delito
vocabular.


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sacerdotisa



Nasci com hábitos
de coruja.
Minha garatuja
continha estrelas.
Sozinha,
ergui um templo.
A exemplo do sol,
persegui o equinócio.

Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.
Pelo poder da palavra,
escolhi-me poetisa.
Não seria
a poesia
um sacerdócio?


Poema publicado no Maria Clara em 13 de fevereiro.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Nota da confeiteira


Queridos leitores,

amanhã é meu aniversário
e ganhei um presente antecipado!

Fui convidada a integrar o blog
Maria Clara simplesmente poesia,
onde faço, hoje, a minha estreia.

Espero que todos vocês me visitem
para a leitura de
Sacerdotisa.

Um beijo a todos vocês!


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ileso



segue
sem
o som
de guizos

sabe
bem
o peso
de seus sorrisos


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Além de si



E se não fosse por muito,
seria por pouco.
Sem voz,
falaria rouco.
Coagido,
bancaria o louco.

Por não se conter.

Pra que menos,
se poderia ser mais?
Por que não voar,
se o fazem pardais?
Se não há para sempre,
como crer no jamais?

Por não se contentar.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Pipa e a Esfera



a mulher
das dúvidas
ficou
com o homem
das certezas

em uma
recíproca proeza:

ele era sua certeza
ela era sua dúvida


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Abismo in cômodo



Solidão
tem andares.
E quem aguenta
se acomodar
na cobertura?
É lá
que mais
se distancia
dos lugares.
É onde
cumprimenta
a melancolia
à loucura.


Para Marcos Marinho,
ator solista da peça teatral Meu dia perfeito,
escrita e dirigida por Ricardo Martins.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O poeta e a ciranda



Palavra é grão e palha.
Poesia é o que passa
ou o que falha?


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Meias verdades



se te disser a verdade direi que minto
não pelo inegável prazer que há na mentira
mas por ser branca e suave a taça que a vira
enquanto a verdade é vinho seco e tinto

se minha boca suporta dizê-la inteira
eu creio que a tua não tolera prová-la
não é todo segredo que cabe na fala
as uvas mais acres que fiquem na videira

brinda comigo sem receio ou amargura
que te direi ao meio essa verdade escura
há detalhes que se devem silenciar

as palavras por mim muito bem escolhidas
serão as mais doces dessas uvas colhidas
pra que não as desaprove teu paladar


domingo, 10 de janeiro de 2010

Confissão aos homens



toda mulher
traz uma sombra no olhar
------------------------------- não de maquiagem -
e carrega um peso nos ombros
------------------------------- sem qualquer bagagem -

toda mulher
parece estar nua
------------------------------- mesmo vestida -
e se faz conhecer aos outros
------------------------------- sempre escondida -

toda mulher
se encara no espelho
------------------------------- aos por quês -
e se sente verdadeiramente só
------------------------------- apesar de vocês -



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

100 mm



Ele revelou que a fotografa
às escondidas

com os olhos

quando ela distraída
põe os dela
num lugar qualquer.


Disse-lhe sempre bela
o brilho da pele clara

em feições de mulher

o contorno que lhe desce
da testa reta e pára
no queixo angulado e fino.


Percorrê-la assim tão doce
a ela soou como prece

a pose instantânea como sino

a chamá-lo ao compromisso
de adorá-la
como fosse.


Ele e ela quase noviços
à meia luz da câmara escura

ela o seduz

ele à procura
do perene viço
de sua face.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fada madrinha



Que no exato
instante da passagem,
sua abóbora 2009
se transforme em carruagem!


Escrito de brincadeira
para J. Rodolfo Lima,
que, durante o Amigo Secreto,
encomendou-me, anonimamente,
um doce de abóbora.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Patuá



que presente
eu daria
a você
tão distante
se não
poesia
trançada
a barbante
ou a fio
bem fino?

- colar de contas -


eu as contaria
uma a uma
até que
em linha
nenhuma
mais
fosse sozinha
e assim brilhasse
por ter companhias.

- colar de guias -


desembrulhado: sem papel, fita ou bordado.
caído do céu

- abençoado -



Para Mariana Botelho,
amiga poética secreta
a quem desejo um 2010 iluminado!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Memórias



Somos filhos de nossos pais,
netos de nossos avós.
Por tantas vezes,
são ainda eles
que falam por nós.


Poemeto inserido na monografia
de minha Pós-graduação em Direito Público
cujo tema foi o conflito
entre homossexualidade e liberdade de crença.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Refém



que pedaço
de mim
é mais rijo:
baço
osso
pescoço?

que vão
é esconderijo:
coração
hipófise
cerebelo?

que lugar
é regozijo:
calcanhar
cabelo
ouvido?

refém
ele me mantém,
desconhecido