segunda-feira, 26 de abril de 2010

Iemanjá



não me fale de ontem,
porque sou de agora

não me peça demora,
porque tenho pressa

não me cobre promessa,
pois admito engano

não me venha humano:
vivo prenha de mar


Poema publicado no Maria Clara em 10 de abril.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

De ponta-cabeça



O melhor
do amor,
à minha maneira,
não é amá-lo
inteiro,
mas inteira.


domingo, 18 de abril de 2010

Botafogo



depois de três anos,
o título justo ou não:
FOGO É CAMPEÃO!


terça-feira, 13 de abril de 2010

O erro



Talvez a expectativa
seja o erro.
Vive-se à deriva,
na ânsia
de um ineditismo ilusório.
Sabe-se tão só
que ao enterro
antecede o velório.
Daí a irrelevância
e o cinismo
de todo o resto.
Há algo, enfim, mais funesto
que o aguardo
do amor verdadeiro?
Crê-se que tem sabor de primeiro.
Pra mim, terá gosto de último.


domingo, 11 de abril de 2010

Aniversário do Doce de Lira



Também gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra.
Como quando escrevo (...) no meio da página:

--------------------OBRIGADA!


Trecho do poema Conversa Fiada,
de Mário Quintana.

sábado, 3 de abril de 2010

Demaquilante



Você
não mais me lê.
Se o faz,
não me decifra.
É como se eu falasse
em outra língua
- inacessível.
Como se a frase
de minha boca
soasse pouca
- quase inaudível.
Por que,
se lhe dei
meus códigos,
comandos
e senhas?
Se de mim
fiz relatos,
memorandos,
resenhas?
Tudo em vão,
impressão minha.
Você ignora
linha por linha.
Age por si
- incompreensível.
E eu volto
a estar sozinha
- já sem rímel.


Escrito há alguns anos.

terça-feira, 30 de março de 2010

Abril



março se foi
e não o vi.

seria
o tempo
irracional
como o pi

ou eu
alheia
à geometria
das órbitas?

a areia
caía
tão escassa
na ampulheta

a hora
digital
ultrapassa
a do planeta

que houve
ao dia
e à noite
de antes?

num celeste
ardil
fizeram-se
amantes

março se foi
e não me viu.


sexta-feira, 26 de março de 2010

A d ( i ) v e r s i d a d e



O homem haverá de perceber,
ainda que em um remoto dia,
que não há adversários,
se não aqueles
que ele próprio
cria.


Poemeto inserido na monografia
de minha Pós-Graduação em Direito Público
cujo tema foi o conflito
entre homossexualidade e liberdade de crença.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Imperatriz



e quanto mais se investiga,
maior a intriga:

o que quer
a mulher
afinal?

ser vírgula
(parêntese)
e ponto final

ter pílula
(êxtase)
e gozo real

ser península
(ilha)
e terra continental


Poema publicado no Maria Clara em 13 de março.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Soluço



Desci ao porão
pra rever
monstros antigos
- mas fui em vão.

Descobri
que se tornaram
meus amigos
- logo, somem na escuridão.

De companhia,
restaram-me
vinhos
- a uns poucos degraus do chão.

Embriaguei-me
de apatia
aos golinhos
- subsolo da solidão.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Em negativo



Não,
sua fotografia
jamais caberia
em um porta-retrato!
Que covardia
aguçar-me a visão
e privar-me do tato.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

A valsa



Ao seu lado
e com seu zelo,
sou bailarina
que patina
sobre o gelo

- acumulado
de amores vãos.


Eu deslizo
e rodopio,
em passo
preciso
e esguio

- no espaço
ladeado por suas mãos.



A palavra valsa tem origem no verbo alemão walzen,
que significa girar ou deslizar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Palavrão



Havia aqui
uma palavra
que se me dizia
brava
o bastante
pra te calar.

Decoro
maldito!
Seria
flagrante
delito
vocabular.


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sacerdotisa



Nasci com hábitos
de coruja.
Minha garatuja
continha estrelas.
Sozinha,
ergui um templo.
A exemplo do sol,
persegui o equinócio.

Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.
Pelo poder da palavra,
escolhi-me poetisa.
Não seria
a poesia
um sacerdócio?


Poema publicado no Maria Clara em 13 de fevereiro.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Nota da confeiteira


Queridos leitores,

amanhã é meu aniversário
e ganhei um presente antecipado!

Fui convidada a integrar o blog
Maria Clara simplesmente poesia,
onde faço, hoje, a minha estreia.

Espero que todos vocês me visitem
para a leitura de
Sacerdotisa.

Um beijo a todos vocês!


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ileso



segue
sem
o som
de guizos

sabe
bem
o peso
de seus sorrisos


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Além de si



E se não fosse por muito,
seria por pouco.
Sem voz,
falaria rouco.
Coagido,
bancaria o louco.

Por não se conter.

Pra que menos,
se poderia ser mais?
Por que não voar,
se o fazem pardais?
Se não há para sempre,
como crer no jamais?

Por não se contentar.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Pipa e a Esfera



a mulher
das dúvidas
ficou
com o homem
das certezas

em uma
recíproca proeza:

ele era sua certeza
ela era sua dúvida


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Abismo in cômodo



Solidão
tem andares.
E quem aguenta
se acomodar
na cobertura?
É lá
que mais
se distancia
dos lugares.
É onde
cumprimenta
a melancolia
à loucura.


Para Marcos Marinho,
ator solista da peça teatral Meu dia perfeito,
escrita e dirigida por Ricardo Martins.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O poeta e a ciranda



Palavra é grão e palha.
Poesia é o que passa
ou o que falha?


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Meias verdades



se te disser a verdade direi que minto
não pelo inegável prazer que há na mentira
mas por ser branca e suave a taça que a vira
enquanto a verdade é vinho seco e tinto

se minha boca suporta dizê-la inteira
eu creio que a tua não tolera prová-la
não é todo segredo que cabe na fala
as uvas mais acres que fiquem na videira

brinda comigo sem receio ou amargura
que te direi ao meio essa verdade escura
há detalhes que se devem silenciar

as palavras por mim muito bem escolhidas
serão as mais doces dessas uvas colhidas
pra que não as desaprove teu paladar