Talvez a expectativa seja o erro. Vive-se à deriva, na ânsia de um ineditismo ilusório. Sabe-se tão só que ao enterro antecede o velório. Daí a irrelevância e o cinismo de todo o resto. Há algo, enfim, mais funesto que o aguardo do amor verdadeiro? Crê-se que tem sabor de primeiro. Pra mim, terá gosto de último.
Você não mais me lê. Se o faz, não me decifra. É como se eu falasse em outra língua - inacessível. Como se a frase de minha boca soasse pouca - quase inaudível. Por que, se lhe dei meus códigos, comandos e senhas? Se de mim fiz relatos, memorandos, resenhas? Tudo em vão, impressão minha. Você ignora linha por linha. Age por si - incompreensível. E eu volto a estar sozinha - já sem rímel.
se te disser a verdade direi que minto não pelo inegável prazer que há na mentira mas por ser branca e suave a taça que a vira enquanto a verdade é vinho seco e tinto
se minha boca suporta dizê-la inteira eu creio que a tua não tolera prová-la não é todo segredo que cabe na fala as uvas mais acres que fiquem na videira
brinda comigo sem receio ou amargura que te direi ao meio essa verdade escura há detalhes que se devem silenciar
as palavras por mim muito bem escolhidas serão as mais doces dessas uvas colhidas pra que não as desaprove teu paladar