segunda-feira, 12 de julho de 2010

Crua



Assim
que chega
ao lar,
livra-se
de anel,
brinco
e colar...

Por isso,
não se tatua.
Sem o prazer
de despir-se
toda,
nunca mais
estaria nua.


Escrito a partir de:
"Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo,
esconde-se mais do que o próprio corpo,
com o propósito, entretanto, de se revelar."
Francisco Bosco, em Tattoo You, de Banalogias.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A parede, além de ouvidos



Insaciável a parede.
Tão logo pintada,
novamente se enche
de sede.
A perder-se,
quase chega
a coitada:
trinca
e infla,
de si infiltrada.

E, recostada à cabeceira,
como se ainda
à beira de um sonho,
com a tinta
eu me ponho
intrigada,
a indagar:
_ A que assistiu
cada camada?
Pois se logo
se consumiu a parede,
não há de ter sido
por nada.


Durante leituras de Manoel de Barros.

domingo, 4 de julho de 2010

Mão única



A vida é uma via
aonde se passa sem volta.
A vida é um havia.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Amor de rendição



Se te sou motivo
de desagrado,
porque vivo
a te pedir
palavras
de apaixonado,
por que te manténs,
com tantos poréns,
enfim,
ao meu lado?

É assim
que amo
e bem conhecias
esses meus modos
de século antepassado:
o apego às poesias,
o apreço pelo fado,
o sossego das mãos
em repouso
no avesso do bordado.

Vazias,
mas sempre ao aguardo
de um afago
mais que querido,
tido por inesperado,
que te ponhas
a meus pés
rendido
e em minhas fronhas
enamorado...


Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,
de Alfred Chantrey Corbould, 1869.

domingo, 27 de junho de 2010

O be-a-bá



Sobretudo à crítica,
é imprescindível educação.
_ Narra o jogo, Galvão!


terça-feira, 22 de junho de 2010

Inverno



---------------faço-me
-------------novelo de lã
-----------teço-me casulo
-----de modo que toda manhã
-------chamam-me ao lençol
-----------pra beber o sol
----------------engulo

-------------------e
-------------------m
--------------x-í-c-a-r-a
-------------------d
-------------------e
-------------------a
-------------------s
-------------------a


Durante leituras de Leminski.

sábado, 19 de junho de 2010

A Saramago



Antes que te vás, merecidamente em paz,
para conheceres os tantos saberes que nos são dormentes em vida,
permite-me, por obséquio, uma tão breve despedida,
que não ousaria atrasar-te a ida.
Segue, homem, com toda honraria e haste à Ilha Desconhecida,
consternada te digo, pois deixaste cada obra tua
como que autografada comigo.


"todas as ilhas, mesmo as conhecidas,
são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas"
O Conto da Ilha Desconhecida

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Outono



cortina cerrada
a pálpebra encerada
as lágrimas secas


domingo, 13 de junho de 2010

[...]



noite
de estrelas
sem letras

tudo
como gostaria

um romance
mudo
com a poesia


terça-feira, 8 de junho de 2010

Brasil



Chamem-me de patriota
à vontade.
Eu amo
onde nasci.
É daqui
minha naturalidade.
Distante,
estou fora d'água,
com a mágoa
de minha fala
não ser boa
o bastante.
Meu chão é este,
em que piso
e me pronuncio,
em que não preciso
do desvio
da língua e origem:
palavra,
paladar,
papel moeda,
lugar
e bandeira.
Meus olhos,
alhures,
a tudo corrigem.
Sou de alma
brasileira.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Vasculha-dela



Será
essa mania
de revirar tudo
tão feminina,

porque,
um dia,
toda menina
brinca de casinha
e faxina?


quinta-feira, 27 de maio de 2010

Em rotação



O destino,
senhor ou não
de si

[que diferença
faz]

um dia nos traz
e sorri,

noutro
nos retira
e lamenta.

Da Terra
[que gira]

ir e vir
são gracejos
de menta:

ardem,
à medida
que venta.


Para Tereza.

sábado, 22 de maio de 2010

Soberba



Por que
não desce,
ainda que
cabisbaixo,
desse degrau
transparente?

É aqui embaixo,
bem ou mal,
que se aprende
a ser gente.


quarta-feira, 19 de maio de 2010

Coração



Que fazer com o pingente,
quando a corrente
perde um elo?


sexta-feira, 14 de maio de 2010

À francesa



Há homem (bobo)
que ainda acredita
que mulher bonita
só ama dinheiro.

Desculpa (tola)
de homem que teme
amar une femme
e morrer solteiro.


terça-feira, 11 de maio de 2010

inCubado



e no entrededo
um charuto cubano
: o primeiro

aceso sem isqueiro
no desassossego
dos palitos de fósforo

a lhe intrigar
pelos lábios em prega
pelo segredo da pega
pelo medo de ser pego


Para Wally,
em recordação de uma noite temática entre amigos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Maternidade



ser mãe é repetir

as lições de casa
as piadas leves
a piscina rasa
as birras e greves
as missas e mousses
os contos-de-fada
as estradas de terra
as guerras de almofada
os sonhos e medos
os segredos e descobertas
os ímpetos e alertas

ser mãe é repetir-se


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coisa de ninguém



a poesia
não é minha filha:
não me vem do útero
bacia
e virilha

a poesia
não é minha arte:
não me vem do estudo
bibliografia
e encarte

a poesia não me vem
a poesia não é minha


Para Lara Amaral,
em um diálogo com seu poema Mãe desnaturada,
publicado em 1º de maio no espaço
Teatro da vida.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

[des]Apontamento



A gente sabe muito um do outro,
mas duvido que se conheça.
Só se chega a uma vaga ideia
do que alguém tem na cabeça.


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Iemanjá



não me fale de ontem,
porque sou de agora

não me peça demora,
porque tenho pressa

não me cobre promessa,
pois admito engano

não me venha humano:
vivo prenha de mar


Poema publicado no Maria Clara em 10 de abril.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

De ponta-cabeça



O melhor
do amor,
à minha maneira,
não é amá-lo
inteiro,
mas inteira.