sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Defronte



E quem é você
para oferecer
conselho?
A ironia
de todo dia
diante do espelho.

Alguém
que já viveu além
do esperado?
O sarcasmo
em pleonasmo
disfarçado.

Ninguém lhe disse
ser tolice
o que pensa?
O desafio
em feitio
de ofensa.

Decerto que não
- respondi secamente -
que não sou de sermão,
mas de ser confidente.


De uma amiga confidente para uma amiga de Conselheiro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O amor e o amor do outro



Eu também
não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Amo como sei.
Nem do jeito
que aprendi,
mas sim
de como inventei.

Um amor
cujo fim
seja sempre possível,
queira Deus
improvável.

Um amor
que a mim
pareça infalível
e à poesia,
quase inefável.

É assim
que eu amo:
com lábios e língua,
hálito, saliva
e todos os dentes.

Desde que o outro
não me deixe
à míngua,
que só há amores
se equivalentes.


Escrito a partir de O amor e o outro, de Affonso Romano de Sant'Anna.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Peregrinas



sempre saio
a caminho das letras
e me perco
entre sílabas

as palavras
não têm lugar


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Volante



Estou sempre de partida,
que não sei estacionar-me.
Vaga, a ti não parece
a vida sem charme?


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lírica



Sexo se faz com tão pouco:
corpo,
intenção,
movimento.

Amor é bem mais complexo:
alma,
atenção,
alimento.

Fato a que não se atravessa:
sexo sem amor é ato,
amor com sexo é peça.


Imagem: Romeu e Julieta.

sábado, 21 de agosto de 2010

O cúmulo do egoísmo



Ao trocar de lugar contigo,
eu ponho em ti o meu umbigo.
E se te faço algum bem é por mim:
eu, distinto do que vim.


Já dizia Raul Seixas,
falecido há exatos 21 anos:
O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O mágico emblema



Não admito
que me ditem
as letras.

Não há rito
pra que se editem
os versos.

Vale o escrito:
livre, por conseguinte.

Tão mais bonito,
quanto menor o requinte.


Escrito a partir de O trágico dilema, de Mário Quintana:
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer,
é porque um dos dois é burro.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Belo e a Fera



você me chama
de gata
e eu lhe digo
quem me dera

eu teria
sete vidas:
uma pra cada
quimera

desde que
garantidas
suas mãos
à minha espera


Presente de aniversário.

sábado, 14 de agosto de 2010

Em alto e bom som



tantos os porquês
que optou pela mudez:
disse-lhes bem mais


domingo, 8 de agosto de 2010

Amazona



Jamais adia
sim ou não.
Repudia
a dúvida.
Prefere
precipitação
a inércia.
Ainda que tropece.

Até quem a conhece
a diz insana.
Mas se a julga
infeliz
se engana.
A vida, curto intervalo.
Alguns vão a pé.
Ela segue a cavalo.



Fotografia minha: Cedro.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A [ciden] tal felicidade



poeira fina
talvez purpurina
que se tem à mão

de que só se apercebe
aquele que a vê
pender ao chão


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Inalante



meu sonho de menina
parece de éter agora:
me alucina
e se evapora


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Maria Clara - uniVersos femininos



A obra que se fez do encontro
de doze poetisas espalhadas pelo Brasil
será oficialmente lançada
durante a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo,
no estande da LivroPronto Editora,
de 12 a 22 de agosto deste ano.

O pré-lançamento será hoje às 20:30 h.,
na Casa de Cultura Popular em Caicó/RN,
terra natal de Hercília Fernandes,
organizadora do livro.

Em Belo Horizonte/MG,
o lançamento ocorrerá no mês de setembro,
em local e data a serem ainda confirmados.

Registro, desde já,
minha satisfação e alegria
em ser uma dessas dozes Marias
de mãos dadas em tão bela obra!


terça-feira, 27 de julho de 2010

Aos mascarados



Há tantos
bons modos
de alienar-se.
Pra que
o disfarce?

É incapaz
de saciar-se
com prazeres
inofensivos?

Precisa exibir-se
voraz,
autopredador
entre seres vivos?

Diante do espelho,
empenhe-se ao pavor
de descobrir-se
a própria presa.

Até lá,
conselho algum
lhe fará
defesa.



Após Pulp Fiction,
de Quentin Tarantino.

Imagem: Remorso,
de Salvador Dalí, 1931.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Na balança



oscilo
entre o que é
e o que suponho,
realidade
e sonho,
lucidez
e devaneio

titubeio
entre o que vejo
e o que imagino,
desejo
e desatino,
cupidez
e desprezo

à falta de um contrapeso


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Olfato



sabe-se
verdadeira
uma amizade,
não por proximidade,
mas por sua essência:

aroma de permanência


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Disparates



o mais triste
é o despiste
o faz-de-conta
da não afronta
o descaso
a longo prazo
a inverdade
da intimidade

o mais feio
é pôr-se alheio
a hipocrisia
do bom dia
a aspereza
da gentileza
o improviso
do sorriso

[como se não se amassem]


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Crua



Assim
que chega
ao lar,
livra-se
de anel,
brinco
e colar...

Por isso,
não se tatua.
Sem o prazer
de despir-se
toda,
nunca mais
estaria nua.


Escrito a partir de:
"Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo,
esconde-se mais do que o próprio corpo,
com o propósito, entretanto, de se revelar."
Francisco Bosco, em Tattoo You, de Banalogias.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A parede, além de ouvidos



Insaciável a parede.
Tão logo pintada,
novamente se enche
de sede.
A perder-se,
quase chega
a coitada:
trinca
e infla,
de si infiltrada.

E, recostada à cabeceira,
como se ainda
à beira de um sonho,
com a tinta
eu me ponho
intrigada,
a indagar:
_ A que assistiu
cada camada?
Pois se logo
se consumiu a parede,
não há de ter sido
por nada.


Durante leituras de Manoel de Barros.

domingo, 4 de julho de 2010

Mão única



A vida é uma via
aonde se passa sem volta.
A vida é um havia.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Amor de rendição



Se te sou motivo
de desagrado,
porque vivo
a te pedir
palavras
de apaixonado,
por que te manténs,
com tantos poréns,
enfim,
ao meu lado?

É assim
que amo
e bem conhecias
esses meus modos
de século antepassado:
o apego às poesias,
o apreço pelo fado,
o sossego das mãos
em repouso
no avesso do bordado.

Vazias,
mas sempre ao aguardo
de um afago
mais que querido,
tido por inesperado,
que te ponhas
a meus pés
rendido
e em minhas fronhas
enamorado...


Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,
de Alfred Chantrey Corbould, 1869.