E quem é vocêpara oferecerconselho?A ironiade todo diadiante do espelho.Alguémque já viveu alémdo esperado?O sarcasmoem pleonasmodisfarçado.Ninguém lhe disseser toliceo que pensa?O desafioem feitiode ofensa.Decerto que não- respondi secamente -que não sou de sermão,mas de ser confidente.De uma amiga confidente para uma amiga de Conselheiro.
Eu tambémnão amomelhornem piordo que ninguém.Amo como sei.Nem do jeitoque aprendi,mas simde como inventei.Um amorcujo fimseja sempre possível,queira Deusimprovável.Um amorque a mimpareça infalívele à poesia,quase inefável.É assimque eu amo:com lábios e língua,hálito, salivae todos os dentes.Desde que o outronão me deixeà míngua,que só há amoresse equivalentes.Escrito a partir de O amor e o outro, de Affonso Romano de Sant'Anna.
sempre saioa caminho das letrase me percoentre sílabasas palavrasnão têm lugar
Estou sempre de partida,que não sei estacionar-me.Vaga, a ti não parecea vida sem charme?
Sexo se faz com tão pouco:corpo,intenção,movimento.Amor é bem mais complexo:alma,atenção,alimento.Fato a que não se atravessa:sexo sem amor é ato,amor com sexo é peça.Imagem: Romeu e Julieta.
Ao trocar de lugar contigo,eu ponho em ti o meu umbigo.E se te faço algum bem é por mim:eu, distinto do que vim.Já dizia Raul Seixas,falecido há exatos 21 anos:O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar.
Não admitoque me ditemas letras.Não há ritopra que se editemos versos.Vale o escrito:livre, por conseguinte.Tão mais bonito,quanto menor o requinte.Escrito a partir de O trágico dilema, de Mário Quintana:Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer,é porque um dos dois é burro.
você me chamade gatae eu lhe digoquem me deraeu teriasete vidas:uma pra cadaquimeradesde quegarantidassuas mãosà minha esperaPresente de aniversário.
tantos os porquêsque optou pela mudez:disse-lhes bem mais
Jamais adia
sim ou não.
Repudia
a dúvida.
Prefere
precipitação
a inércia.
Ainda que tropece.
Até quem a conhece
a diz insana.
Mas se a julga
infeliz
se engana.
A vida, curto intervalo.
Alguns vão a pé.
Ela segue a cavalo.
Fotografia minha: Cedro.
poeira finatalvez purpurinaque se tem à mãode que só se apercebeaquele que a vêpender ao chão
meu sonho de meninaparece de éter agora:me alucinae se evapora
A obra que se fez do encontrode doze poetisas espalhadas pelo Brasilserá oficialmente lançadadurante a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo,no estande da LivroPronto Editora,de 12 a 22 de agosto deste ano.O pré-lançamento será hoje às 20:30 h.,na Casa de Cultura Popular em Caicó/RN,terra natal de Hercília Fernandes,organizadora do livro.Em Belo Horizonte/MG,o lançamento ocorrerá no mês de setembro,em local e data a serem ainda confirmados.Registro, desde já,minha satisfação e alegriaem ser uma dessas dozes Mariasde mãos dadas em tão bela obra!
Há tantosbons modosde alienar-se.Pra queo disfarce?É incapazde saciar-secom prazeresinofensivos?Precisa exibir-sevoraz,autopredadorentre seres vivos?Diante do espelho,empenhe-se ao pavorde descobrir-sea própria presa.Até lá,conselho algumlhe farádefesa.Após Pulp Fiction,de Quentin Tarantino.Imagem: Remorso,de Salvador Dalí, 1931.
osciloentre o que ée o que suponho,realidadee sonho,lucideze devaneiotitubeioentre o que vejoe o que imagino,desejoe desatino,cupideze desprezoà falta de um contrapeso
sabe-severdadeirauma amizade,não por proximidade,mas por sua essência:aroma de permanência
o mais tristeé o despisteo faz-de-contada não afrontao descasoa longo prazoa inverdadeda intimidadeo mais feioé pôr-se alheioa hipocrisiado bom diaa asperezada gentilezao improvisodo sorriso[como se não se amassem]
Assimque chegaao lar,livra-sede anel,brincoe colar...Por isso,não se tatua.Sem o prazerde despir-setoda,nunca maisestaria nua.Escrito a partir de:"Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo,esconde-se mais do que o próprio corpo,com o propósito, entretanto, de se revelar."Francisco Bosco, em Tattoo You, de Banalogias.
Insaciável a parede.Tão logo pintada,novamente se enchede sede.A perder-se,quase chegaa coitada:trincae infla,de si infiltrada.E, recostada à cabeceira,como se aindaà beira de um sonho,com a tintaeu me ponhointrigada,a indagar:_ A que assistiucada camada?Pois se logose consumiu a parede,não há de ter sidopor nada.Durante leituras de Manoel de Barros.
A vida é uma viaaonde se passa sem volta.A vida é um havia.
Se te sou motivode desagrado,porque vivoa te pedirpalavrasde apaixonado,por que te manténs,com tantos poréns,enfim,ao meu lado?É assimque amoe bem conheciasesses meus modosde século antepassado:o apego às poesias,o apreço pelo fado,o sossego das mãosem repousono avesso do bordado.Vazias,mas sempre ao aguardode um afagomais que querido,tido por inesperado,que te ponhasa meus pésrendidoe em minhas fronhasenamorado...Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,de Alfred Chantrey Corbould, 1869.