quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Corrente


há um fio
invisível
que une
memórias
de ponta
a ponta

toda conta,
lembrança

a cada miçança,
nós



um fio
comprido
que liga
estórias
ponto
a ponto

todo conto,
segredo

a cada enredo,
nós



arrebentou-se o fio
cederam-se as margens
colhi os seixos rolados
emergiu você



Após leituras de Psicologia, em dia de Iemanjá.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu me importo


quem você pensa que é
pra fazer o que bem quiser
consigo?

sim
eu não sou seu amigo
nem sei o seu nome

mas há algo que nos liga
: pelo umbigo



o ar que você respira
também é meu

o sol
a lua
as estrelas

você está
sob o mesmo céu
que eu

que distância
pode existir entre nós
se você escuta
a minha voz?



somos feitos do mesmo barro
da mesma proporção
de água e terra

e você insiste
em me chamar
de outro
em me julgar
estranho
em me declarar
guerra



não
você não sabe
que eu sou você
em algum momento

na dor
no amor
na alegria

somos sempre
um só
ao relento



a vida
é labirinto
de espelhos

é que muitos andam
de olho vendado

você acha que segue
um caminho distinto
mas a Terra nos gira
pro mesmo lado



Para Felipe Saleme, em 2012.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O lago


[quando o cisne
criado entre patos
encontra o lago

eureca

se vê cisne
deixa os patos
segue os iguais]

floreio:

entre cisnes
em pose no lago
o pato feio



Para Regina Castelo, após Lacan.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Habite-me


                             obra,

                         preciso de

                       guarda-corpo

                          and'aime

                         e roda-pés



sábado, 14 de janeiro de 2017

Cristalino


ainda procuro você
em meus olhos

vasculho à lupa
o vão da retina

e ali encontro
só luz e névoa

você me vendo
e vindo neblina

as mãos côncavas
o coração convexo
a vontade convicta
o cérebro perplexo

até que dos olhos
ele inverte a poesia

e o vislumbre da volúpia
se esvazia



Fotografia: eu, por Felipe Saleme.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Hóspede


Gullar não morreu
   - só foi habitar poema
             mais perto de Deus -



Fotografia: Ferreira Gullar (10.09.1930 - 04.12.2016)

domingo, 20 de novembro de 2016

Ordem


o céu me disse:
_ pede

pedi - pedi - pedi


e o céu me disse:
_ receba

recebi - recebi - recebi


e o céu me disse:
_ cede

cedi - cedi - cedi


e o céu me disse:
_ sobe

subi



Ao meu tio Geraldo.

sábado, 17 de setembro de 2016

Fortaleza


                        a dor da ausência

                        a perda da forma

                        a recusa do toque

                       o medo da recidiva


                 a mulher viva de peito vazio

                a mulher viva e o peito vazio

                     a mulher viva e o vazio

                            mulher e vazio

                                  mulher




Escrito após o filme Aquarius, com Sônia Braga.
Fotografia: Aquarius.

domingo, 21 de agosto de 2016

Andaime


     ergui um castelo para matrioskas

                            :

                 tijolos de papel
             argamassa de palavras

                            :

                  piso de madeira
                casa sem fundação

                            :

                        voaria

                            :
                            :
                            :
                            :

    não fosse o peso de quem o habita
                       em sigilo




Fotografia: Helena Terra.

domingo, 7 de agosto de 2016

Mano amigo


com o incentivo da Lei Murilo Mendes edição 2014.

Lançado na 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora, no dia 15/06/2016,
Mano amigo já foi também apresentado:


Em 13/08/2016, participarei da 3ª Festa Literária de Rio Novo e,
em 10/09/2016, realizarei outra sessão de autógrafos em Juiz de Fora.

De livro, Mano amigo ainda passou a projeto, 
a realização de palestras para pais e professores,
e de oficinas para crianças de até 7 (sete) anos.

Obrigada a todos pelo carinho, apoio e convites que tenho recebido!
Escrever tem me proporcionado belíssimos encontros.


domingo, 29 de maio de 2016

Inconfidente


todo aquele que escreve transborda.

ainda que se escreva em um diário,
o cadeado a servir-lhe de tranca, 
há somente a ilusão do segredo:
as confidências pertencem ao mundo.

todo aquele que escreve denuncia.

ainda que se escreva uma carta,
o nome do destinatário ao envelope,
há somente a ilusão do sigilo:
as notícias pertencem ao mundo.

todo aquele que escreva forja.

ainda que se escreva um soneto,
a rubrica sob os versos medidos,
há somente a ilusão da autoria:
as artes pertencem ao mundo.

e, afinal, se tantos escrevem,

é porque a existência
se exige compartilhada.
há somente a ilusão do corpo:
as vidas pertencem ao mundo.


sábado, 30 de abril de 2016

7 anos de Doce de lira


O blog Doce de lira completou 7 anos no dia 11 de abril,
com mais de 50.000 acessos.

Muito obrigada a todos que o acompanham,
comentam as postagens e me escrevem!

É sempre muito gratificante conviver com vocês
aqui e no Facebook (cliquem para acessar a fanpage).

Beijos da confeiteira!


domingo, 3 de abril de 2016

Inefável


sabe esse silêncio que você insiste
em se impor para melhor sobreviver
ao caos do mundo? desista.
aceite que a mente mente.
é ruído o silêncio que ela emite.
é burburinho a paz que ela inventa.
impossível criar silêncios...
são eles que antecedem as criações.
o silêncio que você busca já existe:
na infinita porção de nada que o habita.
o caminho? ausentar-se de si.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Percalço


você não perde a cabeça
até que a perca

cuidado
para perceber



Poema de carnaval.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Relíquia


intocado
imponente
vazio
eu: teu
sarcófago

do que busco me esquecer,
ao escolher te lembrar?


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O caminho do meio


             o   bem   entre   o   mal
          o   acerto   entre   o   erro
          a   beleza   entre   a   feiura
         a   alegria   entre   a   tristeza
          a   vitória   entre   a   derrota
           a   vigília   entre   o   sonho

                    -   o  convite   -


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Retrospectiva


assisti inerte à coreografia dos minutos,
que se repete incessante diante de meus olhos

nem sequer provei o ritmo, os pés descalços
mantidos rentes às almofadas de um sofá antigo

é novo não perseguir as horas, deixar que o tempo
aconteça ao fundo de todo o resto

sucederam-se os meses e chegou dezembro,
com suas noites festivas e expectativas

no calendário, inevitavelmente
prosseguirão o espetáculo e a dança

dos bastidores, silenciosamente
observarei a evolução das sombras e luzes

seja feita a Única Vontade


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Introspectiva


dezembro insiste
na retrospectiva

querem-me feliz ou triste,
enquanto me sinto apenas viva

esta é a única celebração:
estar aqui, agora,
intimamente consciente
do flagrante mistério
sob nossos olhos

dispenso culpas,
desculpas e lágrimas

recuso promessas,
juramentos e pactos

querendo, abrace-me
para abraçar-se

esta é a revelação do abraço:
a experiência
do não espaço,
do não tempo,
da unidade

de resto,
tudo que veio e vier
é inventado

a verdade é
que não existem
futuro e passado

são apenas sonhos e fardos
que parecem ditar
quem somos

escute
[somos silêncio]


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Poema da eternidade


e quando eu pensei haver acabado,
você me provou que eu tinha errado,
que o fim só existe se inventado,
que nenhuma distância é definitiva

e que não se vive de expectativa,
que o voo exige os pés plantados,
que os minutos não passam atropelados,
que o próprio sonho se impõe medidas

e que o encontro se segue às despedidas,
que todas as voltas também são idas,
que o mistério se esconde às claras,
que daquilo que parte ficam aparas

e que nada que se sente tem sentido,
que o medo é soluço contido,
que o choro é poesia vazada,
que a loucura é razão disfarçada

e que o amor é sempre madrugada,
que os beijos são estrelas cadentes,
que nos olhos acontecem poentes,
que os eclipses vêm dos abraços

e que as letras surgem dos traços,
que o fruto está na semente,
que o futuro aguarda o presente,
que tudo é quietude somente



Após uma noite especial,
na companhia de Thiago Miranda, Sarah Vieira e Gustavo Wood.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Amável


fique com o meu silêncio

[ele pronuncia
tudo aquilo que eu diria,
o que gostaria de que eu dissesse
e o impronunciável]