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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Paralelo


    gosto                       gosto
    quando                    quando
    conversa                  respondo
    comigo                     você
    pelo                         pela
    vento                       brisa
    cada                        cada
    palavra                    palavra
    sua                          minha
    vem                         vai
    sopro                       livre
    movimento              desliza
    todo                        todo
    suspiro                    suspiro
    rajada                     hálito
    toda                        toda
    pausa                      pausa
    calor                       amor



Imagem daqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Mulher


eu sou toda purpurina
sob a pele de cetim
poeira brilhante e fina
um cromossomo me fez assim
                         um cromossomo me fez assim


menina, era boneca
com vestido de jardim
orvalho que nunca seca
o espelho viu e contou pra mim
                         o espelho viu e contou pra mim


pareço falar demais
mas toda história é sem-fim
palavras pelos varais
o homem diz que falo em latim
                         o homem diz que falo em latim


tenho garras de leoa
e colo de querubim
sou mãe de qualquer pessoa
o amor se inventa no camarim
                         o amor se inventa no camarim


a rotina de armadilhas
ameaças de festim
com a força das virilhas
a mulher voa do trampolim
                         a mulher voa do trampolim




Tela de Frida Kahlo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Rapunzel

In the Bleak Midwinter by Loreena McKennitt on Grooveshark
Inicie a música antes da leitura.



eu sou
essa mulher
no alto da torre.
que o escolheu e lhe
ofereceu as longas tranças
pra que subisse e a encontrasse.
caminhar distraído, você foi laçado.
sem saber o que o esperava. sem sequer
desconfiar do que lhe viria depois dos cabelos. 
não lhe dei escolha. você teve de subir e escorregar,
subir e escorregar. subir e escorregar tantas vezes quantos
fossem os seus medos. de altura, de tontura, de devaneio. hoje,
eu o vejo da torre à metade do caminho. ainda perdido, desajeitado,
quase aflito. as tranças retas, você insiste em sabê-las curvas. eu espero.
eu esperei a vida inteira. sei que, um dia, terei a cabeça leve e a nuca livre.
e desceremos da torre juntos, finalmente de mãos dadas. degrau por degrau.


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Disparates



o mais triste
é o despiste
o faz-de-conta
da não afronta
o descaso
a longo prazo
a inverdade
da intimidade

o mais feio
é pôr-se alheio
a hipocrisia
do bom dia
a aspereza
da gentileza
o improviso
do sorriso

[como se não se amassem]


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Amor de rendição



Se te sou motivo
de desagrado,
porque vivo
a te pedir
palavras
de apaixonado,
por que te manténs,
com tantos poréns,
enfim,
ao meu lado?

É assim
que amo
e bem conhecias
esses meus modos
de século antepassado:
o apego às poesias,
o apreço pelo fado,
o sossego das mãos
em repouso
no avesso do bordado.

Vazias,
mas sempre ao aguardo
de um afago
mais que querido,
tido por inesperado,
que te ponhas
a meus pés
rendido
e em minhas fronhas
enamorado...


Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,
de Alfred Chantrey Corbould, 1869.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

À francesa



Há homem (bobo)
que ainda acredita
que mulher bonita
só ama dinheiro.

Desculpa (tola)
de homem que teme
amar une femme
e morrer solteiro.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

M' água



Ele falou sem pensar. E a magoou.
Ela pensou sem querer. E se trancou.
A moça
tranca mágoas
no fundo de si.

Eles quis se desculpar. E a abraçou.
Ela desculpou. E não sorriu.
A moça magoada
nem mesmo abraçada
sorri.

Moça
tem coração-poço.
Moço
tem coração-poça.
O poço é profundo,
a poça é rasa.
A moça represa,
o moço vaza.
Ele seca,
ela alaga.


Escrito em 2008.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ama



Ele lhe beija a mão,
mas lhe priva
de beijar o pé
à justificativa
de que é
submissão

- como se o amor
não fosse,
por si,
servidão.


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Elas e eles e elas



as mulheres
não vão ao cinema
- apenas -
pela musculatura
viril

os homens, sim,
abdicam da cultura
apenas
por um - bom -
quadril


Escrito a partir de uma reportagem de Isabela Boscov,
publicada na Veja desta semana:
edição 2126 - ano 42 - nº 33 - p. 139.