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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O desejo da memória


um gesto
apenas um gesto
que mude o resto da história
- são tantos gestos possíveis -
mas nenhum vem
e eu também não tomo iniciativa
por não querer sequer a expectativa
de uma resposta
- talvez ela não venha -
e ficamos assim
nessa peleja ferrenha
há anos imposta
- como se nada acontecesse –
próximos à superfície
em comum algum interesse
nada muito além do domingo
em que todos comparecem à mesa
- onde estão os olhos se não nos olhos? -
tamanha a estranheza
dos que se veem
sem olhar


Escrito após a peça Essa estranha sensação de família.
Recorte de fotografia disponibilizada no link acima.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Epitáfio


impossível viver sem algum medo.
impossível amar sem o maior dos medos.



Escrito a partir de um texto do poeta Rogério Tadeu.
Fotografia-presente.

sábado, 5 de agosto de 2017

Na estação


toda a vida
andei de trem,
porque via graça
no apito,
na fumaça,
no som do atrito das rodas
sobre os trilhos entre as britas,
no vai-e-vem lateral dos vagões
por sobre a linha vertical e férrea.

as tardes eram tão bonitas,
que me escondi, certa vez,
e pernoitei no trem
: parado.

sem apito,
sem fumaça,
sem o som do atrito das rodas
sobre os trilhos entre as britas,
sem o vai-e-vem lateral dos vagões
por sobre a linha vertical e férrea,
passei a noite em claro.

era só o frio do metal,
era só o calafrio no escuro.
vagão duro sem janelas,
pó de caixas, fuligem,
saliva amarga.

ainda quero andar de trem,
só que não mais em trem de carga.



Fotografia minha.

sábado, 17 de setembro de 2016

Fortaleza


                        a dor da ausência

                        a perda da forma

                        a recusa do toque

                       o medo da recidiva


                 a mulher viva de peito vazio

                a mulher viva e o peito vazio

                     a mulher viva e o vazio

                            mulher e vazio

                                  mulher




Escrito após o filme Aquarius, com Sônia Braga.
Fotografia: Aquarius.

domingo, 27 de outubro de 2013

Óvni


na roça da minha infância,
em toda noite de céu estrelado,
minha avó chegava à janela,
abria os braços
e pedia num sorriso:
vem me buscar,
Ser do espaço,
mesmo que seja
pr'um breve passeio!
eu assistia àquilo
com medo,
por acreditar na minha avó
e, consequentemente, em ets.
a nave nunca veio,
pelo menos não na minha frente.
hoje,
sempre que chego à janela
e vejo as estrelas,
em segredo
abro os braços
e peço num sorriso:
vozinha, me espera...
minha nave também vai chegar.



Escrito durante a oficina A arte de tecer com o fio da memória,
ministrada por Raquel Lara Rezende na programação do Sesc Literatura,
promovido pelo Sesc Juiz de Fora.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A menina remendada


ela brinca
e sonha
tem medo
e vergonha

ela pula
e canta
às vezes
se espanta

ela é linda
e doce
melhor
que não fosse

a boneca é de pano:
tecido humano


ela reza
e confia
só gosta
do dia

ela vai
ela vem
a mando
de alguém

ela chora
e se deita
já menos
perfeita

a boneca é de pano:
retalho humano


com perdão e renda
ela se remenda

ela se remenda
com renda e perdão



Escrito em 2 de junho de 2011
para a querida Adriana Barata,
roteirista e diretora do curta Casa de Boneca,
minha estreia na maquiagem cênica.
O tema do filme é o abuso sexual infantil.

domingo, 29 de novembro de 2009

Dia-agnóstico



só duas palavras
duas palavras somente
tornou-se descrente


terça-feira, 16 de junho de 2009

Medos



Carrego malas
pesadas e vazias.

Por que levá-las
se de nada
me servem?

As mãos parecem
menos frias
quando ocupadas.

As fantasias de alças
me [dis]traem

pelas calçadas.

Como de costume.


Onde haveria
um guarda-volumes?


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Revolta e medo


P____ !
Indignada,
nada censurável
que xingue,
inclusive em versos!
Cidade maravilhosa
- heresia.
Aqui não há poesia,
senão com revolta e medo.
Do dedo,
levaram-me, hoje, uma aliança.
Levaram-me mais que isso.
Sobretudo a esperança
de que a tudo me manteria alheia,
como quem ao mar revolto apenas assiste da areia
(praia em que não há salva-vidas).
Cidade de m____
- que me perdoem os poetas.
É que, nesta noite,
recuso-me, renitente, à hipocrisia.
Sobre estas linhas há lágrimas
- e que sorte a minha!
Bem poderia haver sangue...


Escrito em 2004, na noite em que fui vítima de roubo em Botafogo.