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domingo, 14 de janeiro de 2018

Gratidão


acordei mais cinza que o domingo
mas mamãe soprou todas as nuvens

coar café na hora
recuperar o pão dormido
e lavar louça rezando

: a que mais aspirar saber nesta vida?


sábado, 5 de agosto de 2017

Na estação


toda a vida
andei de trem,
porque via graça
no apito,
na fumaça,
no som do atrito das rodas
sobre os trilhos entre as britas,
no vai-e-vem lateral dos vagões
por sobre a linha vertical e férrea.

as tardes eram tão bonitas,
que me escondi, certa vez,
e pernoitei no trem
: parado.

sem apito,
sem fumaça,
sem o som do atrito das rodas
sobre os trilhos entre as britas,
sem o vai-e-vem lateral dos vagões
por sobre a linha vertical e férrea,
passei a noite em claro.

era só o frio do metal,
era só o calafrio no escuro.
vagão duro sem janelas,
pó de caixas, fuligem,
saliva amarga.

ainda quero andar de trem,
só que não mais em trem de carga.



Fotografia minha.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Difração


houve uma noite
em que deixei de
gritar por socorro
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.....................
  sentei ao poço
  e mirei o chão
   fui salva pelo
         luar


domingo, 10 de maio de 2015

Retido

 
ela o havia perdido.
assim,
sem aviso prévio,
sem motivo certo,
sem o ter conhecido.
 
a notícia seca
a lhe engasgar o peito.
 
o choro contido,
o único meio de se fazer ininterrupto.
 
a vida jamais voltaria à de antes.
 
teria sempre
o sorriso imperfeito,
o abraço doído
e a alma triste.
 
e a maioria lhe dizia em tom de chiste
que logo, logo lhe viria outra espera.
 
o maior absurdo acerca do aborto
é que poucos o veem como filho morto.
 
o luto foi seu e de mais ninguém.
 
 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sombrio


eu sempre espero

e porque sempre espero
já esqueci o porquê da espera

as coisas são assim: perdem-se
quando não encontradas

entre o sonho e a quimera
há só duas polegadas

se o que espero vier um dia
será tarde muito tarde

onde pus a lamparina
que tanto ardia e não mais arde?


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Angu


Se todo passado é poço,
a infância é mina
da água mais fresca e cristalina,
eternamente potável
e quase doce.
Quase.
Não fosse o caroço,
a fruta seria só polpa.
Mas sem alma,
o corpo só teria roupa.
Ainda bem que toda fase,
principalmente a infância,
tem caroço e alma.
A gente cresce,
primeiro em osso,
depois em calma,
com a lição
de que a vida inteira é metade:
colo e família,
sonho e vigília,
dor e felicidade.
Uma lenta descoberta:
o amor só existe por dentro.
Por isso, toda relação é incerta.
Raramente, a gente se sente amado.
Seria o amor um caroço guardado?
Por que, então,
a gente não sai de boca aberta
e cheio de vontade
até alcançar o caroço do outro?
É que o medo dá azia.
Perde-se a fome,
altera-se o paladar.
Ninguém come.
Cada caroço em seu lugar.
E, aos poucos, a gente entende:
a alma é que escolhe a quem amar.
Assim,
alguma solidão sempre será companhia.
O fim, ao começo.
A noite, ao dia.
E todo sorriso terá gosto
de lágrima caída.
A vida é isso:
uma panela de mingau quente,
feito de fubá, água e melancolia
quase sem pressa.
Quase.
O tempo é esse fogo que não cessa.



Escrito após a leitura de Por parte de pai,

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Inventário


minha infância
coube numa caixa.
de sapato,
tamanho 35.

ao abri-la,
sem trinco,
um piano azul
sem bateria,
antigo e novo,
quem diria:
eu nunca fui pianista.

um jogo de lápis bicolores,
todos com a ponta em crista,
intactos:
desenhos que deixei
pr'algum dia.

uma engenhoca
em forma de ovo
que, ao girar,
partia-lhe a casca:
passarinho gerado
e jamais nascido.

e coisas de menina:
meu primeiro vestido,
um urso agarradinho,
a caneta cor-de-rosa
com o meu nome bordado.

cheques.

dentro da caixa, outra caixa:
como soluço guardado.

um globo sem eixo:
o mundo sem gravidade.

o desleixo de uma trena quebrada:
as medições de felicidade.

ao lado,
o noivo e a noiva de espuma
em branco encardido
ao aguardo de maio

a sorte eleita por um papagaio.
a grafia de quem me fez papel.

nessa caixa
de Melissa
que não tive
quando pequena.

que preguiça,
ainda calço 35.



Escrito durante as oficinas do projeto Ave, Palavra,
promovido pela livraria A Terceira Margem.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tratado de fim de ano



as ruas estão cheias
as vitrines, decoradas
as calçadas, derrapantes
as noites, mal dormidas

dezembro se repete
exatamente como antes:
todo ano, a mesma angústia
entre luzes coloridas

de onde, esse nó na garganta:
é dezembro que o agiganta
ou ele vem das despedidas?

de onde, esse aperto no peito:
ele viria de qualquer jeito
como selo de horas perdidas?

e as pessoas se cumprimentam
como se fossem todas queridas...
para que abraços forjados
quando as testas estão franzidas?

dezembro se repete
exatamente em pormenores:
a ceia pelos lares
a tristeza aos arredores

entre estrelas e guirlandas
e velas e altares
e piscas nas varandas

muitos se afligem em sigilo:
como de si fazer festa
se o que se quer é asilo?



Ilustração de Fabrícia Batista.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Esfarrapado



como
de costume,

o pedido
de desculpa

veio em flores
de tecido:

colorido,
sem perfume,

com anseio
de eternidade


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Dezembro em nós



sei lá...

Natal e verão
parece que não virão

dezembro passará
sem noite de estrela
e sol vilão

o céu será
todo escuridão
e tempestade

e sem luz e calor
haverá felicidade?

sei não...


Imagem: A noite estrelada, de Vincent van Gogh, 1889.

domingo, 10 de outubro de 2010

Tristeza



é melodia baixa
que se repete
a mesma faixa
a mesma faixa
a mesma faixa

é poesia em tom
de ladainha
o mesmo som
o mesmo som
o mesmo som

é elegia remota
e sem fim
a mesma nota
a mesma nota
a mesma nota


Imagem: Tristeza, tela de Nilza Silva.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Outono



cortina cerrada
a pálpebra encerada
as lágrimas secas


sexta-feira, 12 de março de 2010

Soluço



Desci ao porão
pra rever
monstros antigos
- mas fui em vão.

Descobri
que se tornaram
meus amigos
- logo, somem na escuridão.

De companhia,
restaram-me
vinhos
- a uns poucos degraus do chão.

Embriaguei-me
de apatia
aos golinhos
- subsolo da solidão.


sábado, 12 de dezembro de 2009

O princípio do fim



Se bem
me lembro,

dezembro
é neblina

que vem
e passa,

mas embaça
a retina;

é nuvem
baixa,

à faixa
dos olhos,

a pedir
uma prece,

pois que desce
com o céu:

Seu berço,
meu terço,
o véu.



Para Marcelo Novaes,
em um diálogo subliminar
com os poemas intrigantes que publica
em O lugar que importa.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

M' água



Ele falou sem pensar. E a magoou.
Ela pensou sem querer. E se trancou.
A moça
tranca mágoas
no fundo de si.

Eles quis se desculpar. E a abraçou.
Ela desculpou. E não sorriu.
A moça magoada
nem mesmo abraçada
sorri.

Moça
tem coração-poço.
Moço
tem coração-poça.
O poço é profundo,
a poça é rasa.
A moça represa,
o moço vaza.
Ele seca,
ela alaga.


Escrito em 2008.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Soturno


Inicie a música antes da leitura.


Chopin
enche de noite esta manhã
de inverno.

O sol
brilha e não aquece o virol
das nuvens.

O vento
sopra e não alivia o ferimento
das folhas.

O café
bem forte me mantém ao pé
da cama.

A escuridão,
o frio e a dor não estão
lá fora.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Pelo ralo



eu protejo
o choro
até o banho

lágrimas
e gotas de azulejo
têm iguais
intervalo
e tamanho

e seguem
pelo ralo
indefinidas

- ninguém mais
pra saber de nossas vidas