sexta-feira, 23 de julho de 2010

Na balança



oscilo
entre o que é
e o que suponho,
realidade
e sonho,
lucidez
e devaneio

titubeio
entre o que vejo
e o que imagino,
desejo
e desatino,
cupidez
e desprezo

à falta de um contrapeso


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Olfato



sabe-se
verdadeira
uma amizade,
não por proximidade,
mas por sua essência:

aroma de permanência


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Disparates



o mais triste
é o despiste
o faz-de-conta
da não afronta
o descaso
a longo prazo
a inverdade
da intimidade

o mais feio
é pôr-se alheio
a hipocrisia
do bom dia
a aspereza
da gentileza
o improviso
do sorriso

[como se não se amassem]


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Crua



Assim
que chega
ao lar,
livra-se
de anel,
brinco
e colar...

Por isso,
não se tatua.
Sem o prazer
de despir-se
toda,
nunca mais
estaria nua.


Escrito a partir de:
"Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo,
esconde-se mais do que o próprio corpo,
com o propósito, entretanto, de se revelar."
Francisco Bosco, em Tattoo You, de Banalogias.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A parede, além de ouvidos



Insaciável a parede.
Tão logo pintada,
novamente se enche
de sede.
A perder-se,
quase chega
a coitada:
trinca
e infla,
de si infiltrada.

E, recostada à cabeceira,
como se ainda
à beira de um sonho,
com a tinta
eu me ponho
intrigada,
a indagar:
_ A que assistiu
cada camada?
Pois se logo
se consumiu a parede,
não há de ter sido
por nada.


Durante leituras de Manoel de Barros.

domingo, 4 de julho de 2010

Mão única



A vida é uma via
aonde se passa sem volta.
A vida é um havia.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Amor de rendição



Se te sou motivo
de desagrado,
porque vivo
a te pedir
palavras
de apaixonado,
por que te manténs,
com tantos poréns,
enfim,
ao meu lado?

É assim
que amo
e bem conhecias
esses meus modos
de século antepassado:
o apego às poesias,
o apreço pelo fado,
o sossego das mãos
em repouso
no avesso do bordado.

Vazias,
mas sempre ao aguardo
de um afago
mais que querido,
tido por inesperado,
que te ponhas
a meus pés
rendido
e em minhas fronhas
enamorado...


Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,
de Alfred Chantrey Corbould, 1869.

domingo, 27 de junho de 2010

O be-a-bá



Sobretudo à crítica,
é imprescindível educação.
_ Narra o jogo, Galvão!


terça-feira, 22 de junho de 2010

Inverno



---------------faço-me
-------------novelo de lã
-----------teço-me casulo
-----de modo que toda manhã
-------chamam-me ao lençol
-----------pra beber o sol
----------------engulo

-------------------e
-------------------m
--------------x-í-c-a-r-a
-------------------d
-------------------e
-------------------a
-------------------s
-------------------a


Durante leituras de Leminski.

sábado, 19 de junho de 2010

A Saramago



Antes que te vás, merecidamente em paz,
para conheceres os tantos saberes que nos são dormentes em vida,
permite-me, por obséquio, uma tão breve despedida,
que não ousaria atrasar-te a ida.
Segue, homem, com toda honraria e haste à Ilha Desconhecida,
consternada te digo, pois deixaste cada obra tua
como que autografada comigo.


"todas as ilhas, mesmo as conhecidas,
são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas"
O Conto da Ilha Desconhecida

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Outono



cortina cerrada
a pálpebra encerada
as lágrimas secas


domingo, 13 de junho de 2010

[...]



noite
de estrelas
sem letras

tudo
como gostaria

um romance
mudo
com a poesia


terça-feira, 8 de junho de 2010

Brasil



Chamem-me de patriota
à vontade.
Eu amo
onde nasci.
É daqui
minha naturalidade.
Distante,
estou fora d'água,
com a mágoa
de minha fala
não ser boa
o bastante.
Meu chão é este,
em que piso
e me pronuncio,
em que não preciso
do desvio
da língua e origem:
palavra,
paladar,
papel moeda,
lugar
e bandeira.
Meus olhos,
alhures,
a tudo corrigem.
Sou de alma
brasileira.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Vasculha-dela



Será
essa mania
de revirar tudo
tão feminina,

porque,
um dia,
toda menina
brinca de casinha
e faxina?


quinta-feira, 27 de maio de 2010

Em rotação



O destino,
senhor ou não
de si

[que diferença
faz]

um dia nos traz
e sorri,

noutro
nos retira
e lamenta.

Da Terra
[que gira]

ir e vir
são gracejos
de menta:

ardem,
à medida
que venta.


Para Tereza.

sábado, 22 de maio de 2010

Soberba



Por que
não desce,
ainda que
cabisbaixo,
desse degrau
transparente?

É aqui embaixo,
bem ou mal,
que se aprende
a ser gente.


quarta-feira, 19 de maio de 2010

Coração



Que fazer com o pingente,
quando a corrente
perde um elo?


sexta-feira, 14 de maio de 2010

À francesa



Há homem (bobo)
que ainda acredita
que mulher bonita
só ama dinheiro.

Desculpa (tola)
de homem que teme
amar une femme
e morrer solteiro.


terça-feira, 11 de maio de 2010

inCubado



e no entrededo
um charuto cubano
: o primeiro

aceso sem isqueiro
no desassossego
dos palitos de fósforo

a lhe intrigar
pelos lábios em prega
pelo segredo da pega
pelo medo de ser pego


Para Wally,
em recordação de uma noite temática entre amigos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Maternidade



ser mãe é repetir

as lições de casa
as piadas leves
a piscina rasa
as birras e greves
as missas e mousses
os contos-de-fada
as estradas de terra
as guerras de almofada
os sonhos e medos
os segredos e descobertas
os ímpetos e alertas

ser mãe é repetir-se


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coisa de ninguém



a poesia
não é minha filha:
não me vem do útero
bacia
e virilha

a poesia
não é minha arte:
não me vem do estudo
bibliografia
e encarte

a poesia não me vem
a poesia não é minha


Para Lara Amaral,
em um diálogo com seu poema Mãe desnaturada,
publicado em 1º de maio no espaço
Teatro da vida.