domingo, 10 de maio de 2015

Retido

 
ela o havia perdido.
assim,
sem aviso prévio,
sem motivo certo,
sem o ter conhecido.
 
a notícia seca
a lhe engasgar o peito.
 
o choro contido,
o único meio de se fazer ininterrupto.
 
a vida jamais voltaria à de antes.
 
teria sempre
o sorriso imperfeito,
o abraço doído
e a alma triste.
 
e a maioria lhe dizia em tom de chiste
que logo, logo lhe viria outra espera.
 
o maior absurdo acerca do aborto
é que poucos o veem como filho morto.
 
o luto foi seu e de mais ninguém.
 
 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Aos ares

 
o poema voou,
não sem antes
me chamar
a segui-lo.
 
sem asas,
como poderia
me arriscar
àquilo?
 
ainda que saltasse
ao sopro do vento,
eu sempre estaria
sem movimento.
e se o ar sôfrego
perdesse o fôlego?
trôpego, eu cairia
em dois tempos.
 
o poema voltou
e me disse
que o voo
é desejo.
 
em brasas,
ele haveria
de me levar
num lampejo.
 
foi assim que saltei
ao sopro do vento,
ao inspirar o primeiro
pensamento.
e se o desejo trôpego
perdesse o fôlego?
sôfrego, eu planaria
no contratempo.
 
 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sobrevoo

 
eu era moça e meu filho, um menino.
eu já lhe apontava pr'onde olhar,
mas ainda a ignorar que os olhos
são livres e se antecipam às mãos.
haveriam sempre de pousar
os dele onde quisessem,
assim como os meus, que sabia
tão deslumbrados com os voos
que raramente pousavam.
só os sonhos de infância
sobrevoam a vida.
todos os outros, inventados
por alguma mentira, nublam-se
e caem em queda livre feito chuva.
quem éramos, mãe e filho,
naquele instante evaporado?
o tempo cuidou de se amarelar
na fotografia esquecida à gaveta.
 
 

Imagem: fotografia de família.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mudo

 
há um não dito naquilo que me diz
o segredo é grito detido à garganta
enquanto não puser os pingos nos is
eu farei a leitura que hoje me espanta
 
coração é solo de um campo minado
um passo em falso e o amor se despedaça
seu silêncio mantém o mapa guardado
meus pés titubeiam temendo a desgraça
 
a verdade é bem-vinda ainda que doa
o que a boca confessa a alma perdoa
pra que entre nós estratégias de guerra?
a verdade que é dita a si mesmo enterra 
 

sábado, 11 de abril de 2015

6 anos de Doce de lira

 
Muito obrigada a todos os que visitam esta confeitaria poética,
seja aqui no blog, seja através do facebook.
 
Beijo grande da Confeiteira!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Templo

 
a sala
de estar despida
de móveis
me convida
a também estar
imóvel
 
a parede
da memória
sem retrato
 
o tapete
do desejo
sem poeira
 
a estante
da ilusão
sem bibelôs
 
as almofadas
de sonhos
sem espuma
 
no vazio
a minha voz
se torna eco
desse silêncio
que há
em nós
 
somos todos o imóvel
em que acumulamos
as coisas
 
e acabamos por crer
que somos as coisas
que acumulamos
 
 
 
a sala
de jantar inerte
no apartamento
me adverte
a sempre jantar
sem fome
 
a panela
de pedra
sem tampa
 
a chama
de fogo
bem branda
 
os pratos
tão rasos
quanto os olhos
 
os talheres
ainda mais leves
que as mãos
 
a verdade
é que a vontade
desaparece
nesse silêncio
que há
em nós
 
somos todos o imutável
em que acontecem
as coisas
 
e acabamos por crer
que somos as coisas
que acontecem
 
 
 
a casa inteira me grita
em meio à mudança:
tudo vem
fica
se cansa
e parte
antes que se diga
assim seja
 
pois que
assim seja
simplesmente
porque assim é:
muito além
de tudo
que eu sinta
ou veja
 
 

sábado, 21 de março de 2015

Gramatical


um verbo se despe
porque a ação se insinua.
o infinitivo a surgir
do infinito feito lua.
o sujeito oculto
quase vulto
apenas murmura:
varamos a tarde
sem alarde
com a língua crua.
despiu-se o verbo
sem nenhum pudor
ou censura.
a palavra
pra ser amor
se faz nua.



Fotografia de Felipe Saleme.

domingo, 8 de março de 2015

Trilogia feminina

 
I
 
feliz e bonita.
um sorriso no rosto,
no cabelo uma fita.
é cheia de graça
e os olhos parecem de purpurina.
traz em uma das mãos um anel
e nos pés, o sonho da bailarina.
o vestido que lhe põem
pode ser de tule ou organza,
de papel ou cartolina.
hermética num plástico
ou permeável num tecido,
toda boneca carrega uma menina.
 
 
II
 
aprendiz aflita.
saltinho na sandália
e vestido de chita.
é cheia de dúvida
e os olhos parecem de lua.
traz em uma das mãos um espelho
e nos pés, o medo da rua.
a rotina que lhe impõem
deve ser de bule e agulha,
de garfo, faca e colher.
reclusa num oceano
ou livre numa gaiola,
toda menina carrega uma mulher.
 
 
III
 
gris senhorita.
colar com dente de javali
e brincos de marcassita.
traz em uma das mãos um leque
e nos pés, o coturno de um soldado.
o destino que lhe propõem
há de ser de sopro e sangue,
de pó-de-arroz e fuligem.
refém do ventre
ou íntima dos hormônios,
toda mulher carrega a própria origem.
 
 
 
Poema divulgado em 2013, em três espelhos distintos,
na Exposição Ventre - Fotografia e Poesia, com Diego Zanotti.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cíclico

 
deita tudo aquilo que se extravasa
dorme tudo aquilo que é de casa
e sonha tudo aquilo que tem asa
e vive tudo aquilo que se move
 
amanhece tudo que faz sentido
e floresce tudo o que é colorido
e acontece tudo o que é vivido
e então morre tudo que não se move
 
 
Escrito a partir do verso
amanhece tudo que faz sentido,
de autoria do poeta Igor Andrade.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Solidão

 
a solidão
é solitária por vocação.
precisa estar sozinha
sozinha na solidão
de estar sozinha
sem senão.
se não é solitária
não é solidão
nem está sozinha
é apenas senão
da solidão.
 
a solidão
é solitária por opção.
deseja estar sozinha
sozinha na solidão
de estar sozinha
sem senão.
se não é solitária
não é solidão
nem está sozinha
é apenas senão
da solidão.
 
a solidão
é solitária por frustração.
odeia estar sozinha
sozinha na solidão
de estar sozinha
sem senão.
se não é solitária
não é solidão
nem está sozinha
é apenas senão
da solidão.

solitária
a solidão
é seu próprio senão.



Para a querida Bia,
em um exercício após Gertrude Stein.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Doce de lira em Portugal

 
acaba de ser recomendado pela AICALivros,
revista da Associação de Investigação e Cultura
dos Açores/Leiria - Portugal.
 
Confiram o artigo neste link.
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Amor de papel

 
há grandes amores que só existem no papel. são tão pequenos que
cabem na sombra das letras e tão frágeis que se apagam antes do
ponto final. se reescritos, insistem no rascunho. o papel sujo, a
letra torta a tropeçar na pauta e a avançar sobre as margens.
amores pequenos que se agigantam nas palavras, como se
pudessem voar. mas não. são amores de papel, que não
resistem às lágrimas e trovoadas do céu. amores tolos
que temem a experiência do salto antes do abismo,
fadados a jamais se provarem no ar. sob as letras,
alimentam-se de sonhos e de medos. mantêm-se
em juras e segredos. enfim despencam no vão
das entrelinhas. pequenos grandes amores
que se querem somente estória. e que se
escrevem a lápis e à sombra de outras
histórias. para se apagarem sempre
no silêncio de alguma outra dor.
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Desapego


esqueça os olhos pra me olhar.
as pupilas, de tão meninas,
sequer avistam aonde deve chegar.

esqueça a língua pra me beijar.
as papilas, à superfície,
jamais alcançam o que pode provar.

esqueça o papel pra me falar.
os papiros e hieróglifos
ocultam o que anseiam revelar.

esqueça-se de si pra me amar.
as pepitas, leves e raras,
não sabem que valem para brilhar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Sapiência


e não havia o que ser dito
nem sempre a palavra cabe
nem sempre a palavra sabe
é o corpo que assume o rito
o pulso feito bússola da vida
nem sempre o olhar enxerga
nem sempre o olhar enverga
e a direção é sempre sentida
o corpo a anteceder a mente
que se cale a boca da língua
que se fale a língua da boca
que verdade é sempre silente
se não havia nada a ser dito
é porque o corpo era sóbrio
é porque o corpo era sábio
e sabia que o saber é finito



... sapientia, que quer dizer conhecimento saboroso.
Sapere, em latim, tem o duplo sentido de "saber" e "ter sabor". 
Rubem Alves, em Variações sobre o prazer.
  
Imagem: Vitarka mudra.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Senzala


a palavra
escraviza

de tudo que batiza
ela se apodera

a coisa deixa de ser
para chamar-se

àquilo que era
é dado um disfarce

toda máscara
é algema

como livrar-se
a coisa do nome?

a maiúscula apequena
o que nomeia

a tônica intimida
a tentativa

o próprio som
como correia

a própria vida
menos viva

a palavra
cativa


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Encadeados


gostaria de que falasse comigo tudo
aquilo que guarda em seu baú trancado.
passe-me as chaves do cadeado:
eu lhe ajudarei a soprar
cada mínima palavra empoeirada.
todo segredo existe unicamente
pra ser revelado, mais nada.
passe-me as chaves do cadeado:
eu tocarei com a ponta dos dedos
a sua verdade silenciada.

não, eu não acredito que as tenha
perdido na madrugada.
passe-me as chaves do cadeado:
eu imagino que as leve
consigo pra todo lado.
cada segredo existe unicamente
pra ser revelado, mais nada.
passe-me as chaves do cadeado:
eu beberei na calada da noite
do seu mistério destilado.

passe-me as chaves.
por favor, passe-me as chaves,
que você sabe tanto quanto eu:
são elas que abrem
o meu baú guardado,
onde foram trancadas
as que abrem o seu.



A Ponte dos Cadeados, em Paris.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Epitáfio


estranho esse estranhamento com a morte,
visto que ela se anuncia desde o primeiro
segundo de vida.

morre o homem aos noventa e muitos anos
e vai tão cedo!, por que tão cedo?, tão
querido que era, tanta falta fará.

será isso?

que saudade ansiosa seria essa a já
se queixar da ausência diante
do cadáver? 

se não aos noventa e tantos anos muito bem
vividos, em que outra idade se poderia morrer
sem essa invariável sucessão de lamentos?

lamenta-se, afinal, o morto ou a morte?

a saudade é pretérita. é o choro da lembrança.
confissão de impotência do homem, que, por mais
avançada a ciência, jamais se deslocará no tempo
além de nas escassas memórias.

o corpo é finito. é acúmulo de células.
a mansidão da matéria, que se sabe
provisória e simplesmente aceita
a circunstância.

que ninguém se engane: o morto é a morte.
o sussurro fúnebre aos ouvidos. o sinal ostensivo
de que o fim é próximo, queira Deus o mais
distante possível.

todo homem é menino.



A Manoel de Barros.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Uno


você é a ilusão mais tangível
que criei desde sempre.
certamente o tocaria
se não o soubesse
mais uma ilusão.
e perdidamente
eu me apaixonaria,
porque apaixonar-se
é próprio de tudo aquilo
que se sonha com as mãos.
a lucidez levou-me o sonho
e devolveu-me os olhos.
não posso impedir a
sua vinda ou negar
o meu chamado:
tudo quase real.
o que posso é me
pôr à distância para
ver a fugacidade que há
na aparência dos encontros.

você não existe
e eu não existo:
somente o amor.


domingo, 8 de junho de 2014

Átomos



ei!

há quanto tempo
você gira nessa órbita?

você sabe o que circula?

o que é que você enxerga
em meio a essa poeira cósmica?

conhece seu eixo?

se eu fosse você, parava.
por obséquio.

é que a sua órbita
interfere na minha.

cada vez que gira
irresponsavelmente,
movimenta partículas
por toda parte.

e eu,
cá no meu centro,
apenas sofro.



Para Edmo Magalhães.