sábado, 21 de março de 2015

Gramatical


um verbo se despe
porque a ação se insinua.
o infinitivo a surgir
do infinito feito lua.
o sujeito oculto
quase vulto
apenas murmura:
varamos a tarde
sem alarde
com a língua crua.
despiu-se o verbo
sem nenhum pudor
ou censura.
a palavra
pra ser amor
se faz nua.



Fotografia de Felipe Saleme.

domingo, 8 de março de 2015

Trilogia feminina

 
I
 
feliz e bonita.
um sorriso no rosto,
no cabelo uma fita.
é cheia de graça
e os olhos parecem de purpurina.
traz em uma das mãos um anel
e nos pés, o sonho da bailarina.
o vestido que lhe põem
pode ser de tule ou organza,
de papel ou cartolina.
hermética num plástico
ou permeável num tecido,
toda boneca carrega uma menina.
 
 
II
 
aprendiz aflita.
saltinho na sandália
e vestido de chita.
é cheia de dúvida
e os olhos parecem de lua.
traz em uma das mãos um espelho
e nos pés, o medo da rua.
a rotina que lhe impõem
deve ser de bule e agulha,
de garfo, faca e colher.
reclusa num oceano
ou livre numa gaiola,
toda menina carrega uma mulher.
 
 
III
 
gris senhorita.
colar com dente de javali
e brincos de marcassita.
traz em uma das mãos um leque
e nos pés, o coturno de um soldado.
o destino que lhe propõem
há de ser de sopro e sangue,
de pó-de-arroz e fuligem.
refém do ventre
ou íntima dos hormônios,
toda mulher carrega a própria origem.
 
 
 
Poema divulgado em 2013, em três espelhos distintos,
na Exposição Ventre - Fotografia e Poesia, com Diego Zanotti.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cíclico

 
deita tudo aquilo que se extravasa
dorme tudo aquilo que é de casa
e sonha tudo aquilo que tem asa
e vive tudo aquilo que se move
 
amanhece tudo que faz sentido
e floresce tudo o que é colorido
e acontece tudo o que é vivido
e então morre tudo que não se move
 
 
Escrito a partir do verso
amanhece tudo que faz sentido,
de autoria do poeta Igor Andrade.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Solidão

 
a solidão
é solitária por vocação.
precisa estar sozinha
sozinha na solidão
de estar sozinha
sem senão.
se não é solitária
não é solidão
nem está sozinha
é apenas senão
da solidão.
 
a solidão
é solitária por opção.
deseja estar sozinha
sozinha na solidão
de estar sozinha
sem senão.
se não é solitária
não é solidão
nem está sozinha
é apenas senão
da solidão.
 
a solidão
é solitária por frustração.
odeia estar sozinha
sozinha na solidão
de estar sozinha
sem senão.
se não é solitária
não é solidão
nem está sozinha
é apenas senão
da solidão.

solitária
a solidão
é seu próprio senão.



Para a querida Bia,
em um exercício após Gertrude Stein.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Doce de lira em Portugal

 
acaba de ser recomendado pela AICALivros,
revista da Associação de Investigação e Cultura
dos Açores/Leiria - Portugal.
 
Confiram o artigo neste link.
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Amor de papel

 
há grandes amores que só existem no papel. são tão pequenos que
cabem na sombra das letras e tão frágeis que se apagam antes do
ponto final. se reescritos, insistem no rascunho. o papel sujo, a
letra torta a tropeçar na pauta e a avançar sobre as margens.
amores pequenos que se agigantam nas palavras, como se
pudessem voar. mas não. são amores de papel, que não
resistem às lágrimas e trovoadas do céu. amores tolos
que temem a experiência do salto antes do abismo,
fadados a jamais se provarem no ar. sob as letras,
alimentam-se de sonhos e de medos. mantêm-se
em juras e segredos. enfim despencam no vão
das entrelinhas. pequenos grandes amores
que se querem somente estória. e que se
escrevem a lápis e à sombra de outras
histórias. para se apagarem sempre
no silêncio de alguma outra dor.
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Desapego


esqueça os olhos pra me olhar.
as pupilas, de tão meninas,
sequer avistam aonde deve chegar.

esqueça a língua pra me beijar.
as papilas, à superfície,
jamais alcançam o que pode provar.

esqueça o papel pra me falar.
os papiros e hieróglifos
ocultam o que anseiam revelar.

esqueça-se de si pra me amar.
as pepitas, leves e raras,
não sabem que valem para brilhar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Sapiência


e não havia o que ser dito
nem sempre a palavra cabe
nem sempre a palavra sabe
é o corpo que assume o rito
o pulso feito bússola da vida
nem sempre o olhar enxerga
nem sempre o olhar enverga
e a direção é sempre sentida
o corpo a anteceder a mente
que se cale a boca da língua
que se fale a língua da boca
que verdade é sempre silente
se não havia nada a ser dito
é porque o corpo era sóbrio
é porque o corpo era sábio
e sabia que o saber é finito



... sapientia, que quer dizer conhecimento saboroso.
Sapere, em latim, tem o duplo sentido de "saber" e "ter sabor". 
Rubem Alves, em Variações sobre o prazer.
  
Imagem: Vitarka mudra.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Senzala


a palavra
escraviza

de tudo que batiza
ela se apodera

a coisa deixa de ser
para chamar-se

àquilo que era
é dado um disfarce

toda máscara
é algema

como livrar-se
a coisa do nome?

a maiúscula apequena
o que nomeia

a tônica intimida
a tentativa

o próprio som
como correia

a própria vida
menos viva

a palavra
cativa


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Encadeados


gostaria de que falasse comigo tudo
aquilo que guarda em seu baú trancado.
passe-me as chaves do cadeado:
eu lhe ajudarei a soprar
cada mínima palavra empoeirada.
todo segredo existe unicamente
pra ser revelado, mais nada.
passe-me as chaves do cadeado:
eu tocarei com a ponta dos dedos
a sua verdade silenciada.

não, eu não acredito que as tenha
perdido na madrugada.
passe-me as chaves do cadeado:
eu imagino que as leve
consigo pra todo lado.
cada segredo existe unicamente
pra ser revelado, mais nada.
passe-me as chaves do cadeado:
eu beberei na calada da noite
do seu mistério destilado.

passe-me as chaves.
por favor, passe-me as chaves,
que você sabe tanto quanto eu:
são elas que abrem
o meu baú guardado,
onde foram trancadas
as que abrem o seu.



A Ponte dos Cadeados, em Paris.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Epitáfio


estranho esse estranhamento com a morte,
visto que ela se anuncia desde o primeiro
segundo de vida.

morre o homem aos noventa e muitos anos
e vai tão cedo!, por que tão cedo?, tão
querido que era, tanta falta fará.

será isso?

que saudade ansiosa seria essa a já
se queixar da ausência diante
do cadáver? 

se não aos noventa e tantos anos muito bem
vividos, em que outra idade se poderia morrer
sem essa invariável sucessão de lamentos?

lamenta-se, afinal, o morto ou a morte?

a saudade é pretérita. é o choro da lembrança.
confissão de impotência do homem, que, por mais
avançada a ciência, jamais se deslocará no tempo
além de nas escassas memórias.

o corpo é finito. é acúmulo de células.
a mansidão da matéria, que se sabe
provisória e simplesmente aceita
a circunstância.

que ninguém se engane: o morto é a morte.
o sussurro fúnebre aos ouvidos. o sinal ostensivo
de que o fim é próximo, queira Deus o mais
distante possível.

todo homem é menino.



A Manoel de Barros.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Uno


você é a ilusão mais tangível
que criei desde sempre.
certamente o tocaria
se não o soubesse
mais uma ilusão.
e perdidamente
eu me apaixonaria,
porque apaixonar-se
é próprio de tudo aquilo
que se sonha com as mãos.
a lucidez levou-me o sonho
e devolveu-me os olhos.
não posso impedir a
sua vinda ou negar
o meu chamado:
tudo quase real.
o que posso é me
pôr à distância para
ver a fugacidade que há
na aparência dos encontros.

você não existe
e eu não existo:
somente o amor.


domingo, 8 de junho de 2014

Átomos



ei!

há quanto tempo
você gira nessa órbita?

você sabe o que circula?

o que é que você enxerga
em meio a essa poeira cósmica?

conhece seu eixo?

se eu fosse você, parava.
por obséquio.

é que a sua órbita
interfere na minha.

cada vez que gira
irresponsavelmente,
movimenta partículas
por toda parte.

e eu,
cá no meu centro,
apenas sofro.



Para Edmo Magalhães.

sábado, 24 de maio de 2014

Pixels


Onde, hoje,
a vida real é mais importante
que o seu registro em celulares?
Todos querem mesmo é anunciar
que foram aqui-e-ali
e fizeram isso-e-aquilo.
Ir e fazer tornaram-se méritos em si.
A vivência? Inteiramente secundária.


sábado, 10 de maio de 2014

Ano-luz


(talvez você não entenda,
eu mesma demorei
a compreender o fato)

desde o exato momento
em que me soube mãe,
tudo cresceu em mim:
o amor, o sabor, o olfato

meu filho ainda tão pequeno
e grande o bastante
pra me fazer gestante:
essa condição tão estranha
de criar na própria entranha
uma vida que não a minha
e maior que a minha
e maior que o mundo

(sim, é possível
que você não entenda
e não há problema,
isso não muda nada)

a cada vez
que me digo mãe,
tudo se clareia em mim:
o amor, a dor, a estrada

meu filho ainda tão pequeno
e grande o suficiente
pra me pôr consciente:
essa condição tão estranha
de ver além da montanha
um caminho que não o de agora
e maior que o de agora
e maior que o mundo

(não, ninguém entenderá,
é possível que julguem um desatino)

o menino
que habita meu ventre
é uma estrela

(sim, es-tre-la)

com trajetória celeste
desconhecida,
luz própria, calor,
grandeza

pequenina centelha
sem nome
que me veio trazer
a certeza:

também sou estrela,
somos todos estrelas
maiores que nós,
maiores que o mundo



Escrito para a querida amiga Débora Coghi.

sábado, 12 de abril de 2014

5 anos de Doce de Lira


Queridos leitores,

o blog completou 5 anos na data de ontem.
Muito obrigada por acompanharem minha produção literária
aqui, no facebook e/ou no livro doce de lira, poesia à mesa.

Um abraço imensamente feliz da Confeiteira!


sexta-feira, 7 de março de 2014

Rapunzel

In the Bleak Midwinter by Loreena McKennitt on Grooveshark
Inicie a música antes da leitura.



eu sou
essa mulher
no alto da torre.
que o escolheu e lhe
ofereceu as longas tranças
pra que subisse e a encontrasse.
caminhar distraído, você foi laçado.
sem saber o que o esperava. sem sequer
desconfiar do que lhe viria depois dos cabelos. 
não lhe dei escolha. você teve de subir e escorregar,
subir e escorregar. subir e escorregar tantas vezes quantos
fossem os seus medos. de altura, de tontura, de devaneio. hoje,
eu o vejo da torre à metade do caminho. ainda perdido, desajeitado,
quase aflito. as tranças retas, você insiste em sabê-las curvas. eu espero.
eu esperei a vida inteira. sei que, um dia, terei a cabeça leve e a nuca livre.
e desceremos da torre juntos, finalmente de mãos dadas. degrau por degrau.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sombrio


eu sempre espero

e porque sempre espero
já esqueci o porquê da espera

as coisas são assim: perdem-se
quando não encontradas

entre o sonho e a quimera
há só duas polegadas

se o que espero vier um dia
será tarde muito tarde

onde pus a lamparina
que tanto ardia e não mais arde?


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Rarefeito


é que

a brisa vem de fora
e o sopro sai de dentro

a brisa se demora
e o sopro é um momento

ela tão despretensiosa
e ele com tanto intento

ela toda misteriosa
e ele parte do centro

brisa frescor da alma
sopro calor do corpo

o sopro a conter a brisa
e a brisa feita de sopro



Escrito após a peça teatral Estranho farol dos cacos,
de Felipe Moratori.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Na ribeira


sem lavar os olhos, eu farejo
coisas a quilômetros

você nem desconfia, mas
deixou vestígios no azul
do azulejo da pia antes mesmo
de abrir esta torneira de água
barrenta e fria

saiu de mãos sujas e elas cheiram
ainda mais à distância,
que piedade

o podre se agarrará às unhas
quanto maiores a ganância
e a maldade

deixe-me aqui:

ciente de que esta água
fria e barrenta a seguir
pelo ralo bolorento
me orienta a abrir os olhos
de remela

sem lavá-los, eu farejo
coisas a quilômetros

minha alma é lavada a barrela