domingo, 29 de maio de 2016

Inconfidente


todo aquele que escreve transborda.

ainda que se escreva em um diário,
o cadeado a servir-lhe de tranca, 
há somente a ilusão do segredo:
as confidências pertencem ao mundo.

todo aquele que escreve denuncia.

ainda que se escreva uma carta,
o nome do destinatário ao envelope,
há somente a ilusão do sigilo:
as notícias pertencem ao mundo.

todo aquele que escreva forja.

ainda que se escreva um soneto,
a rubrica sob os versos medidos,
há somente a ilusão da autoria:
as artes pertencem ao mundo.

e, afinal, se tantos escrevem,

é porque a existência
se exige compartilhada.
há somente a ilusão do corpo:
as vidas pertencem ao mundo.


6 comentários:

Fabrício César Franco disse...

Poetisa,

Você cristalizou num poema nossa lida, para muitos tão sem sentido, para nós tão pesadamente leve (levemente pesada?), tão arduamente vivida, de trazer à baila as palavras que nos compõem.

Muito bom, sempre, ler você. Beijo!

Ana Paula disse...

Adorei este transbordar!
Beijo.

Anônimo disse...

I was suggested this blog by my cousin. I am not sure whether this post is written by him as nobody else know such detailed about my difficulty. You’re wonderful! Thanks!

Dalva M. Ferreira disse...

Conterrânea, com (ou sem) a sua licença, vou divulgar esse poemaço no meu facebook, para que todos saibam como tem poeta em minha terra. Parabéns, depois desse, venham muitos outros!!! Grande abraço.

Débora Piacesi disse...

Lindo, Rê. Preciso.

Sandra Teixeira disse...


É tudo que eu queria dizer.
Obrigada Renata!!!