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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O desejo da memória


um gesto
apenas um gesto
que mude o resto da história
- são tantos gestos possíveis -
mas nenhum vem
e eu também não tomo iniciativa
por não querer sequer a expectativa
de uma resposta
- talvez ela não venha -
e ficamos assim
nessa peleja ferrenha
há anos imposta
- como se nada acontecesse –
próximos à superfície
em comum algum interesse
nada muito além do domingo
em que todos comparecem à mesa
- onde estão os olhos se não nos olhos? -
tamanha a estranheza
dos que se veem
sem olhar


Escrito após a peça Essa estranha sensação de família.
Recorte de fotografia disponibilizada no link acima.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Epitáfio


impossível viver sem algum medo.
impossível amar sem o maior dos medos.



Escrito a partir de um texto do poeta Rogério Tadeu.
Fotografia-presente.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Distração


a borboleta pousou
em minha pálpebra
para voar com meus
olhos. sou mais livre
que ela. eu sou o ar.
e o vácuo. sei disso.
e ela ainda não. ela
ainda não vê que o
colorido das asas é
só sedução. ela voa
mais perto do chão
que do céu. ela nem
sabe que viveu num
casulo. ela vem e só
me cobre a pálpebra
por me pensar vivo,
sem me sentir nulo.
vai, borboleta, siga
seu curso. mas leve
consigo o vento dos
meus cílios sem raiz.



Para Diego Zanotti.
Fotografia: Diego Zanotti.

domingo, 5 de março de 2017

Libidinoso


já nem preciso
fechar os olhos:

na sobra de sol
que pula
a janela do quarto

na dobra do lençol
que ondula
o relevo do ventre

na manobra do vento
que burla
o véu das cortinas

vejo você
à claridade do dia
e falo

entre...

lábios que amanhecem
pernas que obedecem
a cama está vazia



Tela: Floating Nude, de Gustav Klimt.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Vida


Clique antes de iniciar a leitura.




que silêncio é esse

que desassossega?

que som é esse

que cega?

que voz é essa

que some?

que luz é essa

no breu?

que sol é esse

só meu?

que chama é essa

que consome?

que sopro é esse

que desce?

que brisa é essa

que aquece?

que ar é esse

que é fome?

que chão é esse

que acolhe?

que solo é esse

que recolhe?

que casa é essa

a do homem?

que noite é essa

vermelha?

que sono é esse

centelha?

que sonho é esse

sem nome?


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Assim seja


ouço o sino da igreja.
é domingo, começa a missa.
o sol já lambe o lençol e atiça rubores.
a cama por fazer, a alma de joelhos, confesso-me.
errei todas as vezes, errei - digo ao espelho.
e ele se põe a exibir o passado em plano-sequência, todo um roteiro
                                                                                           [de improviso.
errei o tempo, as falas, os gestos, o choro, o riso.
não sou atriz, não sei ser personagem de mim mesma.
errei todas as vezes porque quis, à ignorância do que queria.
coisa mais difícil essa de se conhecer assim, dentro e fora.
eu, cotovia ao céu na inexperiência das asas.
a água no rosto me benze.
perdão - peço a mim e a você.
poema é prece a que se reza sem pressa.
desnecessário crer.
a palavra entra pela fissura, a palavra fura, a palavra enche de luz
                                                                                       [quartzos opacos.
a manhã segue em procissão.
ao som de um canto pagão, bebo da taça de vinho tinto deixada à mesa.
e comungo da beleza que a janela revela: a dança das nuvens
                                                                                  [às escusas do vento.



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu me importo


quem você pensa que é
pra fazer o que bem quiser
consigo?

sim
eu não sou seu amigo
nem sei o seu nome

mas há algo que nos liga
: pelo umbigo



o ar que você respira
também é meu

o sol
a lua
as estrelas

você está
sob o mesmo céu
que eu

que distância
pode existir entre nós
se você escuta
a minha voz?



somos feitos do mesmo barro
da mesma proporção
de água e terra

e você insiste
em me chamar
de outro
em me julgar
estranho
em me declarar
guerra



não
você não sabe
que eu sou você
em algum momento

na dor
no amor
na alegria

somos sempre
um só
ao relento



a vida
é labirinto
de espelhos

é que muitos andam
de olho vendado

você acha que segue
um caminho distinto
mas a Terra nos gira
pro mesmo lado



Para Felipe Saleme, em 2012.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O lago


[quando o cisne
criado entre patos
encontra o lago

eureca

se vê cisne
deixa os patos
segue os iguais]

floreio:

entre cisnes
em pose no lago
o pato feio



Para Regina Castelo, após Lacan.

sábado, 17 de setembro de 2016

Fortaleza


                        a dor da ausência

                        a perda da forma

                        a recusa do toque

                       o medo da recidiva


                 a mulher viva de peito vazio

                a mulher viva e o peito vazio

                     a mulher viva e o vazio

                            mulher e vazio

                                  mulher




Escrito após o filme Aquarius, com Sônia Braga.
Fotografia: Aquarius.

domingo, 21 de agosto de 2016

Andaime


     ergui um castelo para matrioskas

                            :

                 tijolos de papel
             argamassa de palavras

                            :

                  piso de madeira
                casa sem fundação

                            :

                        voaria

                            :
                            :
                            :
                            :

    não fosse o peso de quem o habita
                       em sigilo




Fotografia: Helena Terra.

sábado, 21 de março de 2015

Gramatical


um verbo se despe
porque a ação se insinua.
o infinitivo a surgir
do infinito feito lua.
o sujeito oculto
quase vulto
apenas murmura:
varamos a tarde
sem alarde
com a língua crua.
despiu-se o verbo
sem nenhum pudor
ou censura.
a palavra
pra ser amor
se faz nua.



Fotografia de Felipe Saleme.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Semeadura


os sonhos somente são sonhos se esquecidos no sótão.
se saem, são sopros que alcançam o céu em segundos.
quase pássaros, que sobrevoam as pessoas lá de cima.
e que, solidários, lançam sementes ao solo dos mundos.
eu passo e encontro ao chão essas sementes de sonho.
sorrio, silencio, conservo esse sublime estado de graça.
se do céu recebo sementes é pra serem compartilhadas.
e saio, então, de mãos cheias a presentear quem passa.
é assim que os sonhos se esparramam e se reproduzem.
conosco, semeadores simples e de mãos sempre vazias.
os sonhos somente são sonhos se esquecidos no sótão.
se saem, são bênçãos que resultam em frutos e alegrias.



Escrito para a peça de teatro Do fio ao pavio.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Angu


Se todo passado é poço,
a infância é mina
da água mais fresca e cristalina,
eternamente potável
e quase doce.
Quase.
Não fosse o caroço,
a fruta seria só polpa.
Mas sem alma,
o corpo só teria roupa.
Ainda bem que toda fase,
principalmente a infância,
tem caroço e alma.
A gente cresce,
primeiro em osso,
depois em calma,
com a lição
de que a vida inteira é metade:
colo e família,
sonho e vigília,
dor e felicidade.
Uma lenta descoberta:
o amor só existe por dentro.
Por isso, toda relação é incerta.
Raramente, a gente se sente amado.
Seria o amor um caroço guardado?
Por que, então,
a gente não sai de boca aberta
e cheio de vontade
até alcançar o caroço do outro?
É que o medo dá azia.
Perde-se a fome,
altera-se o paladar.
Ninguém come.
Cada caroço em seu lugar.
E, aos poucos, a gente entende:
a alma é que escolhe a quem amar.
Assim,
alguma solidão sempre será companhia.
O fim, ao começo.
A noite, ao dia.
E todo sorriso terá gosto
de lágrima caída.
A vida é isso:
uma panela de mingau quente,
feito de fubá, água e melancolia
quase sem pressa.
Quase.
O tempo é esse fogo que não cessa.



Escrito após a leitura de Por parte de pai,

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Superego



Eu não sei se te conheço,
se nem tu sabes quem és.
Finges desde o começo
ou somente sob stress?
Quanto de ti é verdade:
pouco, muito pouco ou nada?
Pois sei que vives à sombra
de uma luz imaginada.

Quem te vê não te conhece,
quem te ama ama a ninguém.
Escolheste viver em drama:
o mal a encobrir o bem.
Por trás dessa fantasia,
quem é aquele que sonha:
quem a veste de ironia
ou a despe de vergonha?


A Padre Amaro, de Eça de Queirós.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Despretensiosa


quando eu era criança
e o ano 2000 distante
a vida parecia simples:
maçã do amor
roda gigante

quando eu era moça
e o ano 2000 realidade
a vida parecia simples:
beijo de amor
faculdade

agora que sou mulher
e o ano 2000 lembrança
a vida parece simples:
gesto de amor
esperança

criança
moça
mulher:
se a vida é simples,
que mais você quer?

a boneca da amiga
o cabelo da vizinha
o corpo sem barriga
a idade da sobrinha
o vestido da vitrine
o esmalte da novela
o prato de talharine
o andar de passarela
o príncipe encantado
o saldo de milionária
o rosto todo esticado
a vida extraordinária


Escrito a partir do texto

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Parábola do ser


o homem
apressou
os passos
na ânsia
de alcançar
o horizonte

e nunca
que ficavam
defronte

até que
se sentou
e fechou
os olhos
com apatia

era ali
que o horizonte
existia


Escrito a partir de:
Ser ou não ser ou des-ser ou re-ser? Eis as questões.
Penso, logo desisto.
Talita Prates, em História da minha alma

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pontual



que vontade de ficar
quando a pressa é de seguir

não importa em que lugar
sem roteiro ou souvenir

o agora não tem preço
faço dele um endereço

- estendo a rede na varanda do tempo -


não me venha perguntar
que eu nem quero responder

já tirei até colar
para nada me prender

o agora não tem ponteiro
é seu próprio paradeiro

- entendo a sede na garganta do tempo -


Escrito a partir de:

vou ficar mais um pouquinho
para ver se eu aprendo alguma coisa
nessa parte do caminho
Tulipa Ruiz, em Efêmera

Onde é que eu atrelo o burro, e que eu desço da sela,
e entrego a rédea a alguém...?
Dalva Maria Ferreira, em Poesias Soltas

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O amor e o amor do outro



Eu também
não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Amo como sei.
Nem do jeito
que aprendi,
mas sim
de como inventei.

Um amor
cujo fim
seja sempre possível,
queira Deus
improvável.

Um amor
que a mim
pareça infalível
e à poesia,
quase inefável.

É assim
que eu amo:
com lábios e língua,
hálito, saliva
e todos os dentes.

Desde que o outro
não me deixe
à míngua,
que só há amores
se equivalentes.


Escrito a partir de O amor e o outro, de Affonso Romano de Sant'Anna.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O mágico emblema



Não admito
que me ditem
as letras.

Não há rito
pra que se editem
os versos.

Vale o escrito:
livre, por conseguinte.

Tão mais bonito,
quanto menor o requinte.


Escrito a partir de O trágico dilema, de Mário Quintana:
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer,
é porque um dos dois é burro.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Crua



Assim
que chega
ao lar,
livra-se
de anel,
brinco
e colar...

Por isso,
não se tatua.
Sem o prazer
de despir-se
toda,
nunca mais
estaria nua.


Escrito a partir de:
"Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo,
esconde-se mais do que o próprio corpo,
com o propósito, entretanto, de se revelar."
Francisco Bosco, em Tattoo You, de Banalogias.