domingo, 19 de fevereiro de 2017

Assim seja


ouço o sino da igreja.
é domingo, começa a missa.
o sol já lambe o lençol e atiça rubores.
a cama por fazer, a alma de joelhos, confesso-me.
errei todas as vezes, errei - digo ao espelho.
e ele se põe a exibir o passado em plano-sequência, todo um roteiro
                                                                                           [de improviso.
errei o tempo, as falas, os gestos, o choro, o riso.
não sou atriz, não sei ser personagem de mim mesma.
errei todas as vezes porque quis, à ignorância do que queria.
coisa mais difícil essa de se conhecer assim, dentro e fora.
eu, cotovia ao céu na inexperiência das asas.
a água no rosto me benze.
perdão - peço a mim e a você.
poema é prece a que se reza sem pressa.
desnecessário crer.
a palavra entra pela fissura, a palavra fura, a palavra enche de luz
                                                                                       [quartzos opacos.
a manhã segue em procissão.
ao som de um canto pagão, bebo da taça de vinho tinto deixada à mesa.
e comungo da beleza que a janela revela: a dança das nuvens
                                                                                  [às escusas do vento.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sonambulismo


despertei
num sonho
com a dúvida
de quanta vida
disponho? e me
pus a contar o ar

molécula a molécula

e faltava. não havia
ar para tanto fogo.
o desejo não era
pouco, fiquei a
relembrar as
ardências

febrícula por febrícula

e desmaiei.
e acordei num
outro sonho com
a dúvida de quanta
vida disponho? e me 
pus a contar os mares

gotícula por gotícula

sem pressa. era ali que
o desejo habitava. era
essa a sua natureza
: o desejo é coisa
das águas. vem
da profundeza

náugrafo a náufrago




Imagem daqui.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Paralelo


    gosto                       gosto
    quando                    quando
    conversa                  respondo
    comigo                     você
    pelo                         pela
    vento                       brisa
    cada                        cada
    palavra                    palavra
    sua                          minha
    vem                         vai
    sopro                       livre
    movimento              desliza
    todo                        todo
    suspiro                    suspiro
    rajada                     hálito
    toda                        toda
    pausa                      pausa
    calor                       amor



Imagem daqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Mulher


eu sou toda purpurina
sob a pele de cetim
poeira brilhante e fina
um cromossomo me fez assim
                         um cromossomo me fez assim


menina, era boneca
com vestido de jardim
orvalho que nunca seca
o espelho viu e contou pra mim
                         o espelho viu e contou pra mim


pareço falar demais
mas toda história é sem-fim
palavras pelos varais
o homem diz que falo em latim
                         o homem diz que falo em latim


tenho garras de leoa
e colo de querubim
sou mãe de qualquer pessoa
o amor se inventa no camarim
                         o amor se inventa no camarim


a rotina de armadilhas
ameaças de festim
com a força das virilhas
a mulher voa do trampolim
                         a mulher voa do trampolim




Tela de Frida Kahlo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Corrente


há um fio
invisível
que une
memórias
de ponta
a ponta

toda conta,
lembrança

a cada miçança,
nós



um fio
comprido
que liga
estórias
ponto
a ponto

todo conto,
segredo

a cada enredo,
nós



arrebentou-se o fio
cederam-se as margens
colhi os seixos rolados
emergiu você



Após leituras de Psicologia, em dia de Iemanjá.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu me importo


quem você pensa que é
pra fazer o que bem quiser
consigo?

sim
eu não sou seu amigo
nem sei o seu nome

mas há algo que nos liga
: pelo umbigo



o ar que você respira
também é meu

o sol
a lua
as estrelas

você está
sob o mesmo céu
que eu

que distância
pode existir entre nós
se você escuta
a minha voz?



somos feitos do mesmo barro
da mesma proporção
de água e terra

e você insiste
em me chamar
de outro
em me julgar
estranho
em me declarar
guerra



não
você não sabe
que eu sou você
em algum momento

na dor
no amor
na alegria

somos sempre
um só
ao relento



a vida
é labirinto
de espelhos

é que muitos andam
de olho vendado

você acha que segue
um caminho distinto
mas a Terra nos gira
pro mesmo lado



Para Felipe Saleme, em 2012.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O lago


[quando o cisne
criado entre patos
encontra o lago

eureca

se vê cisne
deixa os patos
segue os iguais]

floreio:

entre cisnes
em pose no lago
o pato feio



Para Regina Castelo, após Lacan.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Habite-me


                             obra,

                         preciso de

                       guarda-corpo

                          and'aime

                         e roda-pés



sábado, 14 de janeiro de 2017

Cristalino


ainda procuro você
em meus olhos

vasculho à lupa
o vão da retina

e ali encontro
só luz e névoa

você me vendo
e vindo neblina

as mãos côncavas
o coração convexo
a vontade convicta
o cérebro perplexo

até que dos olhos
ele inverte a poesia

e o vislumbre da volúpia
se esvazia



Fotografia: eu, por Felipe Saleme.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Hóspede


Gullar não morreu
   - só foi habitar poema
             mais perto de Deus -



Fotografia: Ferreira Gullar (10.09.1930 - 04.12.2016)

domingo, 20 de novembro de 2016

Ordem


o céu me disse:
_ pede

pedi - pedi - pedi


e o céu me disse:
_ receba

recebi - recebi - recebi


e o céu me disse:
_ cede

cedi - cedi - cedi


e o céu me disse:
_ sobe

subi



Ao meu tio Geraldo.

sábado, 17 de setembro de 2016

Fortaleza


                        a dor da ausência

                        a perda da forma

                        a recusa do toque

                       o medo da recidiva


                 a mulher viva de peito vazio

                a mulher viva e o peito vazio

                     a mulher viva e o vazio

                            mulher e vazio

                                  mulher




Escrito após o filme Aquarius, com Sônia Braga.
Fotografia: Aquarius.

domingo, 21 de agosto de 2016

Andaime


     ergui um castelo para matrioskas

                            :

                 tijolos de papel
             argamassa de palavras

                            :

                  piso de madeira
                casa sem fundação

                            :

                        voaria

                            :
                            :
                            :
                            :

    não fosse o peso de quem o habita
                       em sigilo




Fotografia: Helena Terra.

domingo, 7 de agosto de 2016

Mano amigo


com o incentivo da Lei Murilo Mendes edição 2014.

Lançado na 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora, no dia 15/06/2016,
Mano amigo já foi também apresentado:


Em 13/08/2016, participarei da 3ª Festa Literária de Rio Novo e,
em 10/09/2016, realizarei outra sessão de autógrafos em Juiz de Fora.

De livro, Mano amigo ainda passou a projeto, 
a realização de palestras para pais e professores,
e de oficinas para crianças de até 7 (sete) anos.

Obrigada a todos pelo carinho, apoio e convites que tenho recebido!
Escrever tem me proporcionado belíssimos encontros.


domingo, 29 de maio de 2016

Inconfidente


todo aquele que escreve transborda.

ainda que se escreva em um diário,
o cadeado a servir-lhe de tranca, 
há somente a ilusão do segredo:
as confidências pertencem ao mundo.

todo aquele que escreve denuncia.

ainda que se escreva uma carta,
o nome do destinatário ao envelope,
há somente a ilusão do sigilo:
as notícias pertencem ao mundo.

todo aquele que escreva forja.

ainda que se escreva um soneto,
a rubrica sob os versos medidos,
há somente a ilusão da autoria:
as artes pertencem ao mundo.

e, afinal, se tantos escrevem,

é porque a existência
se exige compartilhada.
há somente a ilusão do corpo:
as vidas pertencem ao mundo.


sábado, 30 de abril de 2016

7 anos de Doce de lira


O blog Doce de lira completou 7 anos no dia 11 de abril,
com mais de 50.000 acessos.

Muito obrigada a todos que o acompanham,
comentam as postagens e me escrevem!

É sempre muito gratificante conviver com vocês
aqui e no Facebook (cliquem para acessar a fanpage).

Beijos da confeiteira!


domingo, 3 de abril de 2016

Inefável


sabe esse silêncio que você insiste
em se impor para melhor sobreviver
ao caos do mundo? desista.
aceite que a mente mente.
é ruído o silêncio que ela emite.
é burburinho a paz que ela inventa.
impossível criar silêncios...
são eles que antecedem as criações.
o silêncio que você busca já existe:
na infinita porção de nada que o habita.
o caminho? ausentar-se de si.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Percalço


você não perde a cabeça
até que a perca

cuidado
para perceber



Poema de carnaval.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Relíquia


intocado
imponente
vazio
eu: teu
sarcófago

do que busco me esquecer,
ao escolher te lembrar?


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O caminho do meio


             o   bem   entre   o   mal
          o   acerto   entre   o   erro
          a   beleza   entre   a   feiura
         a   alegria   entre   a   tristeza
          a   vitória   entre   a   derrota
           a   vigília   entre   o   sonho

                    -   o  convite   -


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Retrospectiva


assisti inerte à coreografia dos minutos,
que se repete incessante diante de meus olhos

nem sequer provei o ritmo, os pés descalços
mantidos rentes às almofadas de um sofá antigo

é novo não perseguir as horas, deixar que o tempo
aconteça ao fundo de todo o resto

sucederam-se os meses e chegou dezembro,
com suas noites festivas e expectativas

no calendário, inevitavelmente
prosseguirão o espetáculo e a dança

dos bastidores, silenciosamente
observarei a evolução das sombras e luzes

seja feita a Única Vontade