domingo, 21 de agosto de 2016

Andaime


     ergui um castelo para matrioskas

                            :

                 tijolos de papel
             argamassa de palavras

                            :

                  piso de madeira
                casa sem fundação

                            :

                        voaria

                            :
                            :
                            :
                            :

    não fosse o peso de quem o habita
                       em sigilo




Fotografia: Helena Terra.

domingo, 7 de agosto de 2016

Mano amigo


com o incentivo da Lei Murilo Mendes edição 2014.

Lançado na 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora, no dia 15/06/2016,
Mano amigo já foi também apresentado:


Em 13/08/2016, participarei da 3ª Festa Literária de Rio Novo e,
em 10/09/2016, realizarei outra sessão de autógrafos em Juiz de Fora.

De livro, Mano amigo ainda passou a projeto, 
a realização de palestras para pais e professores,
e de oficinas para crianças de até 7 (sete) anos.

Obrigada a todos pelo carinho, apoio e convites que tenho recebido!
Escrever tem me proporcionado belíssimos encontros.


domingo, 29 de maio de 2016

Inconfidente


todo aquele que escreve transborda.

ainda que se escreva em um diário,
o cadeado a servir-lhe de tranca, 
há somente a ilusão do segredo:
as confidências pertencem ao mundo.

todo aquele que escreve denuncia.

ainda que se escreva uma carta,
o nome do destinatário ao envelope,
há somente a ilusão do sigilo:
as notícias pertencem ao mundo.

todo aquele que escreva forja.

ainda que se escreva um soneto,
a rubrica sob os versos medidos,
há somente a ilusão da autoria:
as artes pertencem ao mundo.

e, afinal, se tantos escrevem,

é porque a existência
se exige compartilhada.
há somente a ilusão do corpo:
as vidas pertencem ao mundo.


sábado, 30 de abril de 2016

7 anos de Doce de lira


O blog Doce de lira completou 7 anos no dia 11 de abril,
com mais de 50.000 acessos.

Muito obrigada a todos que o acompanham,
comentam as postagens e me escrevem!

É sempre muito gratificante conviver com vocês
aqui e no Facebook (cliquem para acessar a fanpage).

Beijos da confeiteira!


domingo, 3 de abril de 2016

Inefável


sabe esse silêncio que você insiste
em se impor para melhor sobreviver
ao caos do mundo? desista.
aceite que a mente mente.
é ruído o silêncio que ela emite.
é burburinho a paz que ela inventa.
impossível criar silêncios...
são eles que antecedem as criações.
o silêncio que você busca já existe:
na infinita porção de nada que o habita.
o caminho? ausentar-se de si.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Percalço


você não perde a cabeça
até que a perca

cuidado
para perceber



Poema de carnaval.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Relíquia


intocado
imponente
vazio
eu: teu
sarcófago

do que busco me esquecer,
ao escolher te lembrar?


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O caminho do meio


             o   bem   entre   o   mal
          o   acerto   entre   o   erro
          a   beleza   entre   a   feiura
         a   alegria   entre   a   tristeza
          a   vitória   entre   a   derrota
           a   vigília   entre   o   sonho

                    -   o  convite   -


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Retrospectiva


assisti inerte à coreografia dos minutos,
que se repete incessante diante de meus olhos

nem sequer provei o ritmo, os pés descalços
mantidos rentes às almofadas de um sofá antigo

é novo não perseguir as horas, deixar que o tempo
aconteça ao fundo de todo o resto

sucederam-se os meses e chegou dezembro,
com suas noites festivas e expectativas

no calendário, inevitavelmente
prosseguirão o espetáculo e a dança

dos bastidores, silenciosamente
observarei a evolução das sombras e luzes

seja feita a Única Vontade


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Introspectiva


dezembro insiste
na retrospectiva

querem-me feliz ou triste,
enquanto me sinto apenas viva

esta é a única celebração:
estar aqui, agora,
intimamente consciente
do flagrante mistério
sob nossos olhos

dispenso culpas,
desculpas e lágrimas

recuso promessas,
juramentos e pactos

querendo, abrace-me
para abraçar-se

esta é a revelação do abraço:
a experiência
do não espaço,
do não tempo,
da unidade

de resto,
tudo que veio e vier
é inventado

a verdade é
que não existem
futuro e passado

são apenas sonhos e fardos
que parecem ditar
quem somos

escute
[somos silêncio]


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Poema da eternidade


e quando eu pensei haver acabado,
você me provou que eu tinha errado,
que o fim só existe se inventado,
que nenhuma distância é definitiva

e que não se vive de expectativa,
que o voo exige os pés plantados,
que os minutos não passam atropelados,
que o próprio sonho se impõe medidas

e que o encontro se segue às despedidas,
que todas as voltas também são idas,
que o mistério se esconde às claras,
que daquilo que parte ficam aparas

e que nada que se sente tem sentido,
que o medo é soluço contido,
que o choro é poesia vazada,
que a loucura é razão disfarçada

e que o amor é sempre madrugada,
que os beijos são estrelas cadentes,
que nos olhos acontecem poentes,
que os eclipses vêm dos abraços

e que as letras surgem dos traços,
que o fruto está na semente,
que o futuro aguarda o presente,
que tudo é quietude somente



Após uma noite especial,
na companhia de Thiago Miranda, Sarah Vieira e Gustavo Wood.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Amável


fique com o meu silêncio

[ele pronuncia
tudo aquilo que eu diria,
o que gostaria de que eu dissesse
e o impronunciável]


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Perspectiva


o tempo todo,
você usa o pronome
eu

a todo tempo,
o pronome eu usa
você


domingo, 30 de agosto de 2015

O invisível


não é azul o azul que vês.
aquela nuvem que voa
não é nuvem.
só há céu no véu
que veste teus olhos.
azul e nuvem como
verdades em relevo.
despe os olhos
pr'além da janela.
não existem olhos,
não existe janela.
nua, a verdade
perde molduras.
e é azul o azul que vês.
e é nuvem aquela
nuvem que voa.
o céu são teus olhos.



Aos amigos Dani e André.
Imagem: La cle' des champs, de R. Magritte.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Difração


houve uma noite
em que deixei de
gritar por socorro
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.....................
.....................
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.....................
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.....................
.....................
.....................
  sentei ao poço
  e mirei o chão
   fui salva pelo
         luar


sábado, 4 de julho de 2015

Desafogo

 
se me ouvisse, eu lhe daria parabéns por hoje.
é muito estar viva sob a pele.
é grande estar contida no infinito.
eu lhe diria que a vida não passa de um soluço
e que alguns sonhos merecem permanecer
como sonhos para justificarem o despertar.
não existe justiça tal qual pensávamos,
tampouco verdade a ser conhecida.
o mundo é feito mesmo de luz e sombra.
e, paciência, estamos à sombra.
nem a chama a que chamamos amor
clareia além de poucas horas.
eu lhe ensinaria o silêncio maior que o silêncio.
é preciso esquecer que a palavra fala ou apagá-la
para que se cale. ah, eu lhe pediria um copo d'água
e um tapa nas costas. nada, nada tem sido fácil.
 
 
 
Presente de aniversário.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Hari Om Tat Sat


a verdade
é que me deram
quase tudo:
nome,
sobrenome,
filiação,
religião,
língua,
pátria
e identidade.
quase tudo,
à exceção da verdade:
eu sou aquilo que não me deram.



Hari Om Tat Sat = aquilo que é a Verdade.
Criador e criação são apenas um.

domingo, 10 de maio de 2015

Retido

 
ela o havia perdido.
assim,
sem aviso prévio,
sem motivo certo,
sem o ter conhecido.
 
a notícia seca
a lhe engasgar o peito.
 
o choro contido,
o único meio de se fazer ininterrupto.
 
a vida jamais voltaria à de antes.
 
teria sempre
o sorriso imperfeito,
o abraço doído
e a alma triste.
 
e a maioria lhe dizia em tom de chiste
que logo, logo lhe viria outra espera.
 
o maior absurdo acerca do aborto
é que poucos o veem como filho morto.
 
o luto foi seu e de mais ninguém.
 
 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Aos ares

 
o poema voou,
não sem antes
me chamar
a segui-lo.
 
sem asas,
como poderia
me arriscar
àquilo?
 
ainda que saltasse
ao sopro do vento,
eu sempre estaria
sem movimento.
e se o ar sôfrego
perdesse o fôlego?
trôpego, eu cairia
em dois tempos.
 
o poema voltou
e me disse
que o voo
é desejo.
 
em brasas,
ele haveria
de me levar
num lampejo.
 
foi assim que saltei
ao sopro do vento,
ao inspirar o primeiro
pensamento.
e se o desejo trôpego
perdesse o fôlego?
sôfrego, eu planaria
no contratempo.
 
 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sobrevoo

 
eu era moça e meu filho, um menino.
eu já lhe apontava pr'onde olhar,
mas ainda a ignorar que os olhos
são livres e se antecipam às mãos.
haveriam sempre de pousar
os dele onde quisessem,
assim como os meus, que sabia
tão deslumbrados com os voos
que raramente pousavam.
só os sonhos de infância
sobrevoam a vida.
todos os outros, inventados
por alguma mentira, nublam-se
e caem em queda livre feito chuva.
quem éramos, mãe e filho,
naquele instante evaporado?
o tempo cuidou de se amarelar
na fotografia esquecida à gaveta.
 
 

Imagem: fotografia de família.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mudo

 
há um não dito naquilo que me diz
o segredo é grito detido à garganta
enquanto não puser os pingos nos is
eu farei a leitura que hoje me espanta
 
coração é solo de um campo minado
um passo em falso e o amor se despedaça
seu silêncio mantém o mapa guardado
meus pés titubeiam temendo a desgraça
 
a verdade é bem-vinda ainda que doa
o que a boca confessa a alma perdoa
pra que entre nós estratégias de guerra?
a verdade que é dita a si mesmo enterra