quinta-feira, 2 de abril de 2015

Templo

 
a sala
de estar despida
de móveis
me convida
a também estar
imóvel
 
a parede
da memória
sem retrato
 
o tapete
do desejo
sem poeira
 
a estante
da ilusão
sem bibelôs
 
as almofadas
de sonhos
sem espuma
 
no vazio
a minha voz
se torna eco
desse silêncio
que há
em nós
 
somos todos o imóvel
em que acumulamos
as coisas
 
e acabamos por crer
que somos as coisas
que acumulamos
 
 
 
a sala
de jantar inerte
no apartamento
me adverte
a sempre jantar
sem fome
 
a panela
de pedra
sem tampa
 
a chama
de fogo
bem branda
 
os pratos
tão rasos
quanto os olhos
 
os talheres
ainda mais leves
que as mãos
 
a verdade
é que a vontade
desaparece
nesse silêncio
que há
em nós
 
somos todos o imutável
em que acontecem
as coisas
 
e acabamos por crer
que somos as coisas
que acontecem
 
 
 
a casa inteira me grita
em meio à mudança:
tudo vem
fica
se cansa
e parte
antes que se diga
assim seja
 
pois que
assim seja
simplesmente
porque assim é:
muito além
de tudo
que eu sinta
ou veja
 
 

3 comentários:

manuela barroso disse...

Tão belo como verdadeiro
"Que assim seja"
Feliz Páscoa.
Bjis

Luís Gustavo Brito Dias disse...

Renata, lindo poema.
Adoro seus temas.
dá sempre a sensação de que somos muito maior do que tudo isso.

- parabéns.

Grande abraço. Namastê.

Adriana Barata disse...

Ahhh, Rerrê... fui até sua sala,
me esvaziei e voltei.
Você - sempre inteira;
a nos inteirar da vida
e suas vivências.

receba a revoada de beijos-flor
que lhe envio por essa varanda iluminada da foto