quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Inventário


minha infância
coube numa caixa.
de sapato,
tamanho 35.

ao abri-la,
sem trinco,
um piano azul
sem bateria,
antigo e novo,
quem diria:
eu nunca fui pianista.

um jogo de lápis bicolores,
todos com a ponta em crista,
intactos:
desenhos que deixei
pr'algum dia.

uma engenhoca
em forma de ovo
que, ao girar,
partia-lhe a casca:
passarinho gerado
e jamais nascido.

e coisas de menina:
meu primeiro vestido,
um urso agarradinho,
a caneta cor-de-rosa
com o meu nome bordado.

cheques.

dentro da caixa, outra caixa:
como soluço guardado.

um globo sem eixo:
o mundo sem gravidade.

o desleixo de uma trena quebrada:
as medições de felicidade.

ao lado,
o noivo e a noiva de espuma
em branco encardido
ao aguardo de maio

a sorte eleita por um papagaio.
a grafia de quem me fez papel.

nessa caixa
de Melissa
que não tive
quando pequena.

que preguiça,
ainda calço 35.



Escrito durante as oficinas do projeto Ave, Palavra,
promovido pela livraria A Terceira Margem.

13 comentários:

Renata de Aragão Lopes disse...

Às infâncias que guardamos.

Adriana Barata disse...

35 ainda é seu número
suas letras
- porém -
de verso ficaram!

Belo, como sempre!

Paulo disse...

lindo

Fabrício Franco disse...

Gosto dos pequenos (grandes!) achados em seus escritos: frases lapidares, mudanças bruscas de rota, a surpresa deliciosa de descobrir-me no alheio de outras palavras.

Faço eco aos outros comentários: belo!

Nathália disse...

às lembranças que guardamos, de uma infância diferente ou exatamente do mesmo tamanho! =)

bjs!

Pablo Rocha disse...

Simplesmente inspirador!!

Aplausos!

Agamenon Plait disse...

Renata,
Muito bom o seu espaço.
Fico atraído por todo tipo de inventário pessoal. Acho tratar de oportunidade única para entendermos o que se passa conosco e tudo a sua volta.
Levo conceitos interessantes para o meu espaço.
Parabéns.
Forte abraço.
agamenonplait.blogspot.com

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Renata, minha querida amiga "Carioca do Brejo". Adoro ler o que você escreve. Você passeia nos versos. Maravilha!
Beijo
Manoel

Thaíla disse...

Pra embalar o espírito do mês, haha!
Muito bom!

Wilson Torres Nanini disse...

Lembrou-me do Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Muito bom, em todos os tons e tomadas!

Simone disse...

Oi Renata

Como me emociona e me faz bem um lindo poema como este

Dalva M. Ferreira disse...

Grande Renata.

Isabel Furini disse...

Maravilhoso esse poema. Parabéns!!!