domingo, 22 de setembro de 2013

Amor-dos-homens


ela achava prazer uma palavra
indecente.

e foi isso que me ensinou:
a indiferença dos olhos,
a amargura da boca,
a obstrução dos poros.

desobedeci:
lambi com os olhos,
explorei com a boca,
gozei com os poros.

eu acho prazer uma verdade
indecente.



Escrito a partir de uma conversa com Rizza Riizza,
autora dos dois primeiros versos.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Salve, salve


eu assisto de casa ao movimento nas ruas
e me envergonho.

por que me mantenho ao sofá
se não vivo o país com que sonho?

eu sei que há
fartura de fome,
penúria de teto,
salas de aula e quartos de hospital miseráveis.

por que me calo,
se não pelo conforto das almofadas?

sei que há
preguiça parlamentar,
soberba no veto,
avareza de terno e gravata impecáveis.

por que me calo,
se não pelas pernas descansadas?

as ruas se colorem de jovens
de doze a cem anos de idade
num coro improvisado de protesto.

a imprensa ignora ou manipula o fato,
fala das copas, dos ouros e de todo o resto.

e eu me envergonho nesse pijama listrado,
como que indiferente às dores do povo.

é tão fácil censurar o manifesto.
confesse: o que tem feito por um Brasil novo?


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Angu


Se todo passado é poço,
a infância é mina
da água mais fresca e cristalina,
eternamente potável
e quase doce.
Quase.
Não fosse o caroço,
a fruta seria só polpa.
Mas sem alma,
o corpo só teria roupa.
Ainda bem que toda fase,
principalmente a infância,
tem caroço e alma.
A gente cresce,
primeiro em osso,
depois em calma,
com a lição
de que a vida inteira é metade:
colo e família,
sonho e vigília,
dor e felicidade.
Uma lenta descoberta:
o amor só existe por dentro.
Por isso, toda relação é incerta.
Raramente, a gente se sente amado.
Seria o amor um caroço guardado?
Por que, então,
a gente não sai de boca aberta
e cheio de vontade
até alcançar o caroço do outro?
É que o medo dá azia.
Perde-se a fome,
altera-se o paladar.
Ninguém come.
Cada caroço em seu lugar.
E, aos poucos, a gente entende:
a alma é que escolhe a quem amar.
Assim,
alguma solidão sempre será companhia.
O fim, ao começo.
A noite, ao dia.
E todo sorriso terá gosto
de lágrima caída.
A vida é isso:
uma panela de mingau quente,
feito de fubá, água e melancolia
quase sem pressa.
Quase.
O tempo é esse fogo que não cessa.



Escrito após a leitura de Por parte de pai,

domingo, 28 de abril de 2013

De mãe pra filha


um dia desses,
um menino me perguntou:
essa barriga pesa?
não, respondi,
porque a gente reveza
e, na maior parte do tempo,
é ela que me leva.

é isso.
há seis, sete meses,
tenho sido uma barriga ambulante
que não sossega nem por um instante,
nem pra dormir.

e é tão curioso.
eu nem sei de quem parte a vigília:
de mim
ou da minha filha,
talvez mais atenta ao que me acontece
do que eu ao que realmente lhe alcança.

e me dizem gestante
e a ela, criança.
a maternidade é uma ironia,
porque lá de dentro
em silêncio
é ela que me cria.

antes dela,
eu não sorria
nem chorava assim.
eu não tinha desejos
nem planos de uma vida longa.
éramos só eu e meu umbigo.
e ele estufou-se
e me abriu pro mundo.

somente agora percebo
o quanto viver é dádiva
e o quanto amar é profundo.

nunca nos vimos
e por tantas vezes
já nos encaramos.
ela se estica,
os braços e as pernas ao limite.
e eu me contraio,
todo um ensaio pro parto.

quem é mesmo que vai nascer?

eu vou pro quarto,
apago as luzes,
rezo porque aprendi há pouco.
ela se mexe,
acende as luzes
e me pede pra lhe dar uma história.

e eu lhe conto,
ponto a ponto,
a última que me foi ensinada:
a de que vim menina
pra lhe ter mulher,
um ventre dentro de outro
e, quiçá, de outro
e de outro
e de outro.

é, verdade, menino,
a barriga pesa:
eu carrego o destino dos dias,
o desafio das décadas,
a concepção das eras.

mas meu corpo resiste
a todas as primaveras
na espiral das moléculas,
na gratidão do universo.



Monólogo escrito a partir de uma conversa com a atriz Lívia Gomes, grávida de Cecília.
Fotografia: Lívia Gomes, Cecília e Amanda Martins, por Felipe Saleme.

Twitter: Toda mulher carrega a própria origem.
Tema da Exposição Ventre, com fotografias de Diego Zanotti e poemas de minha autoria.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Despudor


a mudez,
a sua antes da minha,
ambas a me ensurdecerem
por dentro.

quantas palavras omitidas ao vento?
quantas sílabas perdidas na língua?

a minha boca e a sua boca
trancadas.

que verdades requerem sigilo?
que intimidades se querem preservadas?

a minha mudez,
antes da sua,
insinua-se:
calar faz calor nas gengivas.

para que sepultar vontades
quando elas se nos dizem vivas?

a sua boca e a minha boca
fundidas.

que estranheza tem esse silêncio
se ele vem de nossas lambidas?

o imaginário é sempre real:
a nossa mudez,
a sua e a minha,
é a de um beijo atemporal.



Twitter: O beijo antecede às bocas.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

4 anos de Doce de Lira


Queridos leitores,

muito obrigada por acompanharem minha produção literária.
Quase não tenho atualizado o blog.
E o motivo é a organização do meu primeiro livro:

doce de lira, poesia à mesa.

Tão logo ele saia do forno, contarei a vocês.
Um grande abraço da Confeiteira.


domingo, 24 de março de 2013

Emergência


poesia:

antídoto
contra tédio

remédio
a contratempos

soro
antipreguiça

orvalho
que cai, lava e benze
e não aterrissa


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A provisoriedade do luto


corpo algum ressuscita.
os mortos permanecerão mortos
independentemente de homenagens e visitas.
mas as cinzas falam.
e denunciam o que ninguém quer ouvir.
há mais festas e fogos,
carnavais e jogos
que labor por aqui.
a autoridade viaja,
a vigilância adormece,
o proprietário enriquece:
a fatalidade data de alguns anos.
indolente,
o governo apaga incêndios
e paga perdas e danos.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Afortunada

 
pr'aquela tarde desesperada de sol,
ela preparou bolinhos de chuva.
 
contou pratinhas e foi à venda.
comprou farinhas, ovos, leite,
açúcar, fermento e canela.
 
às colheradas,
fritou-os na velha panela,
a mesma desde a infância.
 
bolinhos prontos,
estendeu a toalha mais bonita
e chamou à mesa a vizinhança.
 
mais quente que aquela tarde
foi o sorriso de todos,
o dela inclusive.
 
a partilha é riqueza que se vive.
 
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Em episódios


nada
nessa vida
é tão repentino,
nem mesmo a morte
dita súbita que de súbita
não tem nada, pois aguardada
desde que se nasce como destino

sim

nada
nessa vida
é tão inesperado,
nem mesmo um tornado,
que se faz tornado por ventos
de tempestade de nuvens estranhas,
o céu a dizer que também tem entranhas

assim

por que
nosso mundo
haveria de ter fim
agendado pra uma data,
tal qual compromisso ou festa
a exigir do homem terno e gravata?
todo fim caminho lento e sem passeata


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A menina remendada


ela brinca
e sonha
tem medo
e vergonha

ela pula
e canta
às vezes
se espanta

ela é linda
e doce
melhor
que não fosse

a boneca é de pano:
tecido humano


ela reza
e confia
só gosta
do dia

ela vai
ela vem
a mando
de alguém

ela chora
e se deita
já menos
perfeita

a boneca é de pano:
retalho humano


com perdão e renda
ela se remenda

ela se remenda
com renda e perdão



Escrito em 2 de junho de 2011
para a querida Adriana Barata,
roteirista e diretora do curta Casa de Boneca,
minha estreia na maquiagem cênica.
O tema do filme é o abuso sexual infantil.

domingo, 11 de novembro de 2012

Tocaia


Os baús me têm cochichado
coisas. Por sugestão ou enfado?
Bastaria que saltassem todas,
a evasão dos pertences mudos.
Mas não. Eles ficam, as coisas,
os baús e os murmúrios.
Desarmados, roçam-me
os ouvidos, que tremem.
Resposta imprevista
essa que vem dos baús amontoados.
Ficassem ali no canto, hermeticamente
reclusos, só fariam volume na despensa
da casa. São astutos:
criam frestas, de onde
miram minha nuca e orelhas.
A ordem do caos em dia.
O dia do caos em ordem.



Escrito durante as oficinas do projeto Ave, Palavra,
promovido pela livraria A Terceira Margem.

domingo, 28 de outubro de 2012

Velório


Mataram alguém na esquina.
Das pessoas que passavam
fez-se uma multidão.
A vizinhança não,
mal olhou pela cortina.
Permaneceu em casa
diante do noticiário da tevê.

A multidão logo esvaiu-se,
que tinha mais o que fazer:
não havia sangue algum ao chão.
Onde é que já se viu morto que não sangra?
As tevês se desligaram
ao meio da novela.
Todos à luz da vela.



Escrito durante as oficinas do projeto Ave, Palavra,
promovido pela livraria A Terceira Margem.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Inventário


minha infância
coube numa caixa.
de sapato,
tamanho 35.

ao abri-la,
sem trinco,
um piano azul
sem bateria,
antigo e novo,
quem diria:
eu nunca fui pianista.

um jogo de lápis bicolores,
todos com a ponta em crista,
intactos:
desenhos que deixei
pr'algum dia.

uma engenhoca
em forma de ovo
que, ao girar,
partia-lhe a casca:
passarinho gerado
e jamais nascido.

e coisas de menina:
meu primeiro vestido,
um urso agarradinho,
a caneta cor-de-rosa
com o meu nome bordado.

cheques.

dentro da caixa, outra caixa:
como soluço guardado.

um globo sem eixo:
o mundo sem gravidade.

o desleixo de uma trena quebrada:
as medições de felicidade.

ao lado,
o noivo e a noiva de espuma
em branco encardido
ao aguardo de maio

a sorte eleita por um papagaio.
a grafia de quem me fez papel.

nessa caixa
de Melissa
que não tive
quando pequena.

que preguiça,
ainda calço 35.



Escrito durante as oficinas do projeto Ave, Palavra,
promovido pela livraria A Terceira Margem.

sábado, 6 de outubro de 2012

Estrelas


Espia, que o céu é comprido.
Confia, que o céu não tem fim.
Satélites mostram galáxias.
Quantas estão no camarim?

  

 
Poema minimalista inspirado na tela A Fronteira do Universo, de Carlos Zemek,
a qual retrata, a partir de fotografias do ponto mais distante do universo,
as galáxias mais longínquas e a fronteira tempo-espaço.

domingo, 2 de setembro de 2012

Em graças


há sonhos a que se guarda uma vida inteira.
de tão importantes, eles não têm urgência.
permanecem anos a fio sem esteira
em estado de silêncio e paciência.

são sonhos com que se pode morrer feliz.
guardados, terão cumprido sua missão:
muito antes de qualquer flor, serem raiz,
a fazerem dessa Terra um lindo chão.

e se o destino trouxer a tão grande sorte
de realizá-los antes mesmo da morte,
que da própria alma se possa ouvir um grito.

quando um sonho se transforma em realidade,
há que se sentir bem mais que felicidade:
de sonhador quase que se passa a bendito.



Um sonho realizado:
aprovado pela Lei Murilo Mendes edição 2012, um livro meu será publicado!
Muito obrigada a vocês, leitores, por me possibilitarem esta conquista!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Militante


pare tudo
por um instante
e se pergunte:

você vê
em qualquer outro
um semelhante?

é de amor
e tolerância
o seu semblante?

o que sabe
está em uso
ou na estante?

sua fé
é cabo de aço
ou barbante?

[em silêncio,
Ele o espera
adiante]



Para Luciana Barbosa.

domingo, 8 de julho de 2012

Bioma


natural que sofra
a mulher vive no mangue:
sal, suor e sangue