quinta-feira, 10 de maio de 2012

Original


quando se bebe da palavra
bebe-se da Fonte

a palavra é luz
disponível no horizonte

claridade cujo trago
esclarece ou inebria

não é dessa luz viciante
que é feita a poesia?


Escrito a partir de:

Poesia: aluzcinógeno verbal.

No princípio era o Verbo

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Reveses


porque atingir uma meta
é quase sempre enfadonho,
daquilo que se alcança
se perde o sonho,
eu fiz da minha
o próprio caminho
: essa linha
      em desalinho
             que se pretende reta


e com a única meta
sabidamente infinda,
tanto que hei
de caminhar ainda,
eu saboreio
as incertezas do vento
: não é
      do titubeio
             dos passos
                   que se faz dança
                           o movimento?


a vida
é balé sem plié,
via sem acostamento


quem se
deslumbra
à luz do dia
(como se sua)
não se guia
(a contento)
à penumbra
das noites
sem lua


que perdição é maior que a ilusão de uma conquista?


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Míope



as palavras estão aí
nalgum lugar que desconheço:
por entre as pedras ao chão
em meio às colunas de gesso

e por mais que tropece nelas
ou esbarre em sua grafia,
a verdade é que mal as veem
meus olhos de miopia

sem elas não sou poeta
ou sou por estar incompleta?

escrever é posse
ou busca?

poesia é precoce
ou tardia?

poema é palavra
ou silêncio que se pronuncia?

eu sei que sigo andarilha
de óculos e sapatilha,
as palavras por aí
nalgum lugar que desconheço


O Doce de Lira faz 3 anos.
Obrigada a todos os leitores!

terça-feira, 6 de março de 2012

A desventura do ócio



Fosse pra ser,
teria sido.
Não se chora
pelo leite
nem fervido.

Arrepender-se
do que não se fez
é tolice.
Dói como se talvez
existisse.

Não,
não há se,
nem se não,
tudo é vão.

Passado
é letra morta
que apodrece
sem caixão.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Feicebuqui



Eu passeio pelo Face com peneiras.
Ou elas são muito finas,
ou nele só há besteiras.
Quase nada se aproveita:
apenas um ou outro artigo,
algum vídeo interessante
ou alguma imagem eleita.
De resto, futilidades.
Quase todos se creem celebridades:
expõem-se em fotografias íntimas
e noticiam os próprios destinos.
O que deu nesses meninos?
Por que se põem em vitrine?
Onde está sua autocensura?
Há assuntos que exigem cabine.
E eu saio do Face arrependida:
tempo desperdiçado nessa sociedade falida.


Twitter: O homem se revela pelo uso que faz das ferramentas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Superego



Eu não sei se te conheço,
se nem tu sabes quem és.
Finges desde o começo
ou somente sob stress?
Quanto de ti é verdade:
pouco, muito pouco ou nada?
Pois sei que vives à sombra
de uma luz imaginada.

Quem te vê não te conhece,
quem te ama ama a ninguém.
Escolheste viver em drama:
o mal a encobrir o bem.
Por trás dessa fantasia,
quem é aquele que sonha:
quem a veste de ironia
ou a despe de vergonha?


A Padre Amaro, de Eça de Queirós.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Significâncias



nem toda flor é rosa
nem todo azul é céu
nem todo texto é prosa
nem todo doce é mel

nem todo espelho é mágico
nem toda prece é fé
nem todo amor é trágico
nem toda meia é pé

nem todo pão é trigo
nem todo pó é sal
nem todo anjo é amigo
nem todo lobo é mau

mas toda brisa é saudade
todo lençol é divã
todo soluço é verdade
toda esperança é manhã


Escrito em 11 de julho de 2011.
Fotografia minha: nem todo mar é bravo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tratado de fim de ano



as ruas estão cheias
as vitrines, decoradas
as calçadas, derrapantes
as noites, mal dormidas

dezembro se repete
exatamente como antes:
todo ano, a mesma angústia
entre luzes coloridas

de onde, esse nó na garganta:
é dezembro que o agiganta
ou ele vem das despedidas?

de onde, esse aperto no peito:
ele viria de qualquer jeito
como selo de horas perdidas?

e as pessoas se cumprimentam
como se fossem todas queridas...
para que abraços forjados
quando as testas estão franzidas?

dezembro se repete
exatamente em pormenores:
a ceia pelos lares
a tristeza aos arredores

entre estrelas e guirlandas
e velas e altares
e piscas nas varandas

muitos se afligem em sigilo:
como de si fazer festa
se o que se quer é asilo?



Ilustração de Fabrícia Batista.

domingo, 27 de novembro de 2011

A Voz



a vida pede passagem
enquanto eu peço carona

a alma é livre em viagem
o corpo é que me aprisiona

viver exige coragem
disponho do que não sou dona

o sonho é breve paragem
de tão leve o corpo ressona

a alma me leva consigo
a um tempo futuro ou antigo

e assim me revela a vantagem:
só mergulho se venho à tona


domingo, 13 de novembro de 2011

Retrato falado



sim, eu gostaria de voltar
ao começo

pra repetir cada tropeço
que me trouxe até aqui

que graça teria a vida
sem as lágrimas que perdi?

de tão valiosa,
a sombra é brilhante

só depois se percebe
o que não se vê durante

domingo, 23 de outubro de 2011

O Grande Mandamento



diga:

quando foi
sua última prece,

consolo a quem adoece,
pedaço de bolo ao faminto,
abraço verdadeiro por instinto

- amar ao próximo como a si mesmo -

é tão mais difícil do que parece
ninguém se ama por inteiro
e se dá o quanto merece

amor é de dentro
e floresce:

doe-se

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Meninice



era tempo de criança
de cantiga e roda dança
de canjica e mariola
de bola no pé de moleque

beijinho de salada mista
no chão pista de gude
pião e banho de açude
passeio de trem aos domingos

boneca de pano e casinha
o jogo de amarelinha
o vento a subir a pipa
o sopro a girar cata-vento

tantos anos se passaram
e passado nem parece
meninice é travessura
de quem se desobedece


Para Fê Oliveira.
Escrito a partir de roteiro.

sábado, 8 de outubro de 2011

Nota da Confeiteira



O Doce de Lira completará 2 anos e meio no dia 11 de outubro,
com cerca de 670 seguidores e mais de 31.000 acessos.

Para comemorarmos a data, a Confeitaria terá nova vitrine!
A marca é da talentosa Fabrícia Batista.

Muito obrigada a todos os leitores!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Riso


riso
não foi feito
pra caber em bolsa
pra se levar em bolso
pra se guardar em gaveta

de riso
que vem do peito
não se lava louça
não se tem reembolso
não se pede gorjeta

riso
há de ser solto
talvez revolto
quase careta

riso
é um som mudo
boca de veludo
de outro planeta



Para Betita, minha irmã,
que me inspirou no Facebook
com a música Can't help but smiling,
de Devendra Banhart.

sábado, 27 de agosto de 2011

Entraves



a menos que se distraia
com as janelas,
chegará à porta certa

é que as chaves
de todas elas
estão à barra de sua saia

- mas você espera
encontrá-la aberta



Escrito após a peça teatral Uma história oficial.
Parabéns pelo belo espetáculo!

sábado, 20 de agosto de 2011

Pétala



se ela fosse

rainha:
rosa

princesa:
tulipa

fidalga:
lírio

plebeia:
jasmim

: formosa
em qualquer jardim

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Amar, verbo de ligação



todo tempo é pouco
todo tempo é curto

cada minuto contigo é louco
cada minuto sem ti é furto

quem fui eu antes de tua vinda?
a mulher que te sonhou um dia

quem é essa a que chamas de linda?
a mulher só que te quer companhia

se o amor existe há de ser isso
se o amor é real parece inventado

nada maior que esse compromisso
nada melhor que te ter namorado



Para Mário.
(e que Mário, o de Andrade, não me escute)

domingo, 31 de julho de 2011

Quadratura



aquela que crê
aquele que vê
aquela que voa
aquele que pisa

- lagoa e brisa -

o menino dos olhos
a menina das asas
o menino baliza
a menina lama

- chão e chama -

a mulher borboleta
o homem soleira
a mulher labareda
o homem aquarela

- alameda e capela -

ele a postos
ela rendida
ele sereno
ela à altura

- terreno e quadratura -

[e num simples aceno
fez-se a Luz]



Àqueles que comigo presenciaram um milagre.
26 de julho de 2011

domingo, 17 de julho de 2011

Potter e eu



um ciclo

[do primeiro
a que vi sozinha
a desejar um filho
na cadeira vazia

ao derradeiro
a que vimos juntos
ele já com dez anos
em minha companhia]


Para meu filho que, por coincidência,
é chamado de Harry aonde quer que vá.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Declaração de amor


do amor
que te tenho,
metade
é verso,
metade
é desenho

escrevo
e bordo,
bordo
e escrevo
que te amo
em alto relevo

e se disso
for feito o amor:
daquilo
que se escreve
e borda,

eu digo
que te amo
além,
tão além
que me transborda

um amor
que não se vê
todo dia:
pudesse voar,
eu te ensinaria


Imagem: Mademoiselle Marie-Therese Durand-Ruel Sewing,
de Pierre-August Renoir, 1882.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Despretensiosa


quando eu era criança
e o ano 2000 distante
a vida parecia simples:
maçã do amor
roda gigante

quando eu era moça
e o ano 2000 realidade
a vida parecia simples:
beijo de amor
faculdade

agora que sou mulher
e o ano 2000 lembrança
a vida parece simples:
gesto de amor
esperança

criança
moça
mulher:
se a vida é simples,
que mais você quer?

a boneca da amiga
o cabelo da vizinha
o corpo sem barriga
a idade da sobrinha
o vestido da vitrine
o esmalte da novela
o prato de talharine
o andar de passarela
o príncipe encantado
o saldo de milionária
o rosto todo esticado
a vida extraordinária


Escrito a partir do texto